Como sempre, brilhante este John Pilger.
Passei a conhecer mais a fundo a realidade aborígene australiana quando assisti a um filme que falava das “gerações roubadas“, onde os aborígenes crianças eram raptados aos seus pais e obrigados a ter uma educação e cultura ocidental branca e religião cristã (nada de novo tendo em conta que os Europeus e Americanos fizeram isso a todos os povos indígenas). O filme que trata este assunto é baseado numa história verídica e chama-se “A Vedação” (Título original “Rabbit Proof Fence“). Vale a pena ver. É tão brutalmente revoltante como comovente. Fica a sugestão.
Boa leitura.
Bruno Piairo Teixeira
Romper o Grande Silêncio Australiano, por John Pilger [*]
Obrigado a todos por virem esta noite e os meus agradecimentos à Cidade de Sidney e em especial à Sidney Peace Foundation por conceder-me o Prémio da Paz. É uma honra que muito aprecio, pois ela vem de onde eu venho.
Sou um australiano da sétima geração. O meu trisavô desembarcou não longe daqui, em 8 de Novembro de 1821. Ele vinha com grilhetas, cada uma delas com o peso de quatro libras [1,8 kg]. Seu nome era Francis McCarty. Era um irlandês, condenado pelo crime de insurreição e de “regougar pragas”. Em Outubro do mesmo ano, uma jovem de 18 anos chamada Mary Palmer foi parar no banco dos réus em Middlesex Gaol e condenada a ser transportada para as Novas Gales do Sul pelo resto da sua vida. O seu crime foi roubar para viver. Só o facto de estar grávida salvou-a da forca. Ela foi a minha trisavó. Foi remetida em navio para a Female Factory em Parramatta, uma prisão infame onde toda a terceira segunda-feira do mês eram trazidos condenados homens para um “dia de cortejamento” – uma medida um tanto desesperada de engenharia social. Mary e Francis conheceram-se desse modo e em 21 de Outubro de 1823 estavam casados.
Ao crescer em Sidney, nada sabia acerca disto. As oito irmãs da minha mãe utilizavam muito a palavra “linhagem” (stock). Você vinha ou de “boa linhagem” ou de “má linhagem”. Não se podia mencionar que vínhamos da má linhagem – que tínhamos o que era chamado “a mancha”.
Num Dia de Natal, com toda a família reunida, a minha mãe levantou o assunto das nossas origens criminosas e uma das minhas tias quase engoliu a dentadura. “Deixe-os mortos e enterrados, Elsie!”, disse ela. E assim fizemos – até muitos anos mais tarde e a minha própria investigação em Dublim e Londres feita para um filme de televisão que revelou o pleno horror da nossa “má linhagem”. Houve indignação. “O seu filho”, escreveu a Elsie a minha tia Vera, “é pior do que um maldito comunista”. Ela jurou nunca mais falar-nos outra vez.
O silêncio australiano tem características únicas
Quando fiquei mais velho, fazia excursões ilícitas a La Perouse [1] , postava-me nas dunas e olhava pessoas que se dizia terem desaparecido. Olhava embasbacado para crianças da minha idade, de que se dizia serem sujas e irresponsáveis. Na escola secundária, li um livro do célebre historiador Russel Ward, o qual escreveu: “Nós hoje somos civilizados e eles não”. “Eles”, naturalmente, era o povo aborígene.
A minha educação australiana real principiou no fim da década de 1960 quando Charlie Perkins e a sua mãe, Hetti, levaram-me à área delimitada de Jay Creek, no Northern Territory. Tínhamos de bater ao portão para poder entrar.
O choque com o que vi é inesquecível. A pobreza. A doença. O desespero. A ira silenciosa. Comecei a reconhecer e entender o silêncio australiano.
Esta noite, gostaria de falar acerca deste silêncio: acerca de como ele afecta a nossa vida nacional, o modo como vemos o mundo e o modo como somos manipulados pela grande potência, a qual fala através de um governo invisível de propaganda que subjuga e limita a nossa imaginação política e assegura que estejamos sempre em guerra – contra o nosso próprio primeiro povo e aqueles que procuram refúgio, ou com alguém de outro país.
Em Julho último o primeiro-ministro Kevin Rudd disse isto, cito: “É importante para todos nós recordar aqui na Austrália que o Afeganistão tem sido um campo de treino para terroristas à escala mundial, um campo de treino também para terroristas no Sudeste Asiático, recordando-nos as razões porque estamos no campo de combate e reafirmando a nossa resolução de permanecermos comprometidos com aquela causa”.
Não há qualquer verdade nesta declaração. É o equivalente da mentira do seu antecessor John Howard de que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa.
Pouco antes de Kevin Rudd fazer tal declaração, aviões americanos bombardearam uma festa de casamento no Afeganistão. Pelo menos sessenta pessoas foram despedaçadas, incluindo os recém-casados e muitas crianças. Esta foi a quinta festa de casamento atacada, em nosso nome.
O primeiro-ministro estava de pé junto a uma igreja numa manhã de domingo quando fez a sua declaração. Nenhum repórter o desafiou. Nenhum disse que a guerra era uma fraude: que começou como uma vendetta americana a seguir ao 11/Setembro, no qual nem um único afegão estava envolvido. Nenhum colocou a Kevin Rudd que o nosso inimigo visível no Afeganistão eram homens tribais introvertidos que não tinha qualquer quezília com a Austrália e que nada se preocupavam com o Sudeste da Ásia e apenas queriam os soldados estrangeiros fora do seu país. Acima de tudo, nenhum disse: “Primeiro-ministro, Não há guerra ao terror. Isso é uma fraude. Mas há uma guerra de terror travada por governos, incluindo o governo australiano, em nosso nome”. Aquela festa de casamento, primeiro-ministro, foi explodida em pedaços por uma das mais recentes armas inteligentes, como a bomba Hellfire que suga o ar para fora dos pulmões. Em nosso nome.
Durante a primeira guerra mundial, o primeiro-ministro britânico David Lloyd George confidenciou ao editor do Manchester Guardian: “Se o povo realmente soubesse [a verdade], a guerra pararia amanhã. Mas naturalmente ele não sabe e não pode saber”.
O que é que mudou? Mudou muito realmente. Quando o povo se torna mais consciente, a propaganda torna-se mais refinada.
Um dos fundadores da propaganda moderna foi Edward Bernays, um americano que acreditava que pessoas em sociedades livres podiam ser enganadas e arregimentadas sem que percebessem. Ele inventou um eufemismo para propaganda – “relações públicas”, ou RP. “O que importa”, disse ele, “é a ilusão”. Tal como os cenários montados junto à igreja para as conferências de imprensa de Kevi Rudd, o que importa é a ilusão. Os símbolos do Anzac [Australian and New Zealand Army Corps] são constantemente manipulados assim. Marchas. Medalhas. Bandeiras. O sofrimento da família de um soldado caído. Servir na tropa, diz o primeiro-ministro, é a mais elevada profissão da Austrália. A sordidez da guerra, a matança de civis, disso não há referência. O que importa é a ilusão.
O objectivo é assegurar a nossa cumplicidade silenciosa numa guerra de terror e num aumento maciço do arsenal militar da Austrália. Mísseis de cruzeiro de longo alcance estão a ser posicionados contra vizinhos nossos. O governo Rudd e o Pentágono lançaram uma concorrência para construir robots militares os quais, diz-se, farão o “trabalho sujo do exército” em “zonas de combate urbano”. Que zonas de combate urbano? Que trabalho sujo?
Silêncio
“Confesso”, escreveu Lord Curzon, vice-rei da Índia, mais de um século atrás, “que países são peças num tabuleiro de xadrez sobre o qual está a ser disputado um grande jogo pela dominação do mundo”. Nós australianos temos estado ao serviço do Grande Jogo durante um tempo demasiado longo. Será que os jovens que se enrolam na bandeira em Gallipoli [2] todo o mês de Abril entendem que só as mentiras mudaram – que santificar o sacrifício de sangue em invasões coloniais significa preparar-nos para a próxima?
Quando o primeiro-ministro Robert Menzies enviou soldados australianos para o Vietname na década de 1960, descreveu-os como uma “equipe de treino”, requerida por um governo sitiado em Saigão. Era uma mentira. Um responsável sénior do Departamento de Negócios Estrangeiros escreveu esta verdade secreta: “Embora tenhamos enfatizado publicamente o facto de que a nossa assistência foi dada em resposta a um convite do governo do Vietname do Sul, a nossa oferta foi feita de facto a seguir a um pedido do governo dos Estados Unidos”.
Duas versões. Uma para nós, outra para eles.
Menzies falava constantemente acerca “ímpeto declinante do comunismo chinês”. O que mudou? Do lado de fora da sua igreja, Kevin Rudd disse que estávamos no Afeganistão para travar outro ímpeto em declínio. Ambos foram mentirosos.
Durante a guerra do Vietname, o Departamento de Negócios Estrangeiros fez uma queixa rara a Washington. Queixou-se de que os britânicos sabiam mais acerca dos objectivos da América do que o seu comprometido aliado australiano. Um assistente do secretário de Estado replicou: “Nós temos de informar os britânicos a fim de mantê-los ao nosso lado”, disse ele. “Vocês já estão connosco, venha o que vier”.
Em quantas mais guerras seremos ludibriados antes de rompermos o nosso silêncio?
Quantas mais distracções devemos nós, como um povo, aguentar antes de começarmos a tarefa de reparar as injustiças no nosso próprio país?
“É temos de cantarmos de cima dos telhados do mundo”, disse Kevin Rudd em oposição, “[que] apesar do Iraque, a América é uma força esmagadoramente para o bem do mundo [e] estou ansioso por trabalhar com a grande democracia americana, o arsenal da liberdade…”
Desde a segunda guerra mundial, o arsenal da liberdade derrubou 50 governos, incluindo democracias, e esmagou uns 30 movimentos de libertação. Milhões de pessoas por todo o mundo foram expulsas dos seus lares e sujeitas a sofrimentos lancinantes. O bombardeamento é tão americano quanto a torta de maçã.
No seu discurso de aceitação do Prémio Nobel de Literatura de 2005, Harold Pinter fez esta pergunta: “Por que a brutalidade sistemática, as atrocidades generalizadas, a supressão implacável do pensamento independente da Rússia stalinista é bem conhecida no Ocidente enquanto as acções americanas criminosas nunca aconteceram? Nada alguma vez aconteceu. Mesmo enquanto estava a acontecer isso nunca aconteceu. Não importava. Não era de qualquer interesse”.
Na Austrália, formos treinados para respeitar esta censura por omissão. Uma invasão não é uma invasão se “nós” a fizermos. O terror não é terror se “nós” o praticarmos. Um crime não é um crime se “nós” o cometermos. Ele não aconteceu. Mesmo enquanto estava a acontecer ele não aconteceu. Não importava. Não era de qualquer interesse.
No arsenal da liberdade temos duas categorias de vítimas. As pessoas inocentes mortas nas Torres Gémeas eram vítimas valiosas. As pessoas inocentes mortas pelos bombardeiros da NATO no Afeganistão são vítimas sem valor. Os israelenses são valiosos. Os palestinos não são valiosos. Isto fica complicado. Os curdos que se levantaram contra Saddam Hussein eram valiosos. Mas os curdos que se levantam contra o regime turco não são valiosos. A Turquia é membro da NATO. Eles estão no arsenal da liberdade.
O governo Rudd justifica as suas propostas para gastar milhares de milhões em armas referindo-se ao que o Pentágono chama de “arco de instabilidade” que se estende através do mundo. Os nossos inimigos aparentemente estão por toda a parte – desde a China até o Corno da África. De facto, um arco de instabilidade estende-se na verdade por todo o mundo e é mantido pelos Estados Unidos. A US Air Force chama a isto “full spectrum dominance”. Mais de 800 bases americanas estão prontas para a guerra.
Estas bases protegem um sistema que permite a um por cento da humanidade controlar 40 por cento da riqueza: um sistema que salva apenas um banco com US$180 mil milhões – o que é suficiente para eliminar a desnutrição no mundo, proporcionar educação para toda criança, água e saneamento básico para todos e reverter a difusão da malária. Em 11 de Setembro de 2001 as Nações Unidas informavam que naquele dia 36.615 crianças haviam morrido de pobreza. Mas isso não era notícia.
Jornalistas e políticos gostam de dizer que o mundo mudou em resultado dos ataques do 11 de Setembro. De facto, para aqueles países sob o ataque do “arsenal da liberdade”, nada mudou. O que mudou não é notícia.
Segundo o grande denunciante Daniel Ellsberg, verificou-se um golpe militar nos Estados Unidos, com o Pentágono agora ascendendo a todos os aspectos da política externa.
Não importa quem seja o presidente – George Bush ou Barack Obama. Na verdade, Obama avançou as guerras de Bush e começou a sua própria guerra no Paquistão. Tal como Bush, ele está a ameaçar o Irão, um país que Hillary Clinton disse estar preparada para “aniquilar”. O crime do Irão é a sua independência. Tendo expulso o ditador favorito da América, o Xá, o Irão é o único país muçulmano rico em recursos fora do controle americano. Ele não ocupa qualquer terra dos outros e não atacou qualquer país – ao contrário de Israel, o qual tem armamento nuclear e domina e divide o Médio Oriente por procuração da América.
Na Austrália, não nos dizem isto. É tabu. Ao invés disso, celebramos respeitosamente a ilusão de Obama, a celebridade global, o sonho do marketing. Tal como Calvin Klein, a marca Obama oferece a excitação de uma nova imagem atraente para sensibilidades liberais, se não para as crianças afegãs que ele bombardeia.
Isto é propaganda moderna em acção, utilizando uma espécie de racismo reverso – do mesmo modo como instala género e classe como ferramentas sedutoras. No caso de Barack Obama, o que importa não é a sua corrida ou as suas belas palavras, mas o poder que ele serve.
Num ensaio para The Monthly intitulado “Fé na política” (“Faith in Politics”), Kevin Rudd escreveu isto acerca de refugiados: “O mandamento bíblico de nos preocuparmos com o estrangeiro no nosso meio é claro. A parábola do Bom Samaritano é apenas uma das muitas que tratam do assunto de como deveríamos responder a um estrangeiro vulnerável no nosso meio… Nunca deveríamos esquecer que a razão de termos uma convenção da ONU sobre protecção de refugiados é em grande parte devida ao horror do Holocausto quando o Ocidente (incluindo a Austrália) virou as costas ao povo judeu da Europa ocupada que procurava asilo”.
Compare isso com as palavras de Rudd em outro dia: “Não peço absolutamente nenhuma desculpa a quem quer que seja”, disse ele, “por adoptar uma posição dura sobre imigração ilegal para a Austrália… uma linha dura para com os que procuram asilo”.
Já não estamos fartos desta espécie de hipocrisia? A utilização da expressão “imigrantes ilegais” é tanto falsa como covarde. As poucas pessoas que lutam para alcançar as nossas praias não estão ilegais. O direito internacional é claro – elas estão legais. E ainda assim Rudd, tal como Howard, envia a Armada contra elas e dirige o que é efectivamente um campo de concentração na Ilha Christmas. Vergonhoso. Imagine um navio carregado de pessoas brancas a fugirem de uma catástrofe a serem tratadas assim.
As pessoas naqueles botes em fuga demonstram a espécie de coragem que os australianos dizem admirar. Mas isso não é suficiente para o Bom Samaritano em Canberra, pois ele actua com a mesma intolerância daqueles que, como ele escreveu no seu ensaio, “viraram as costas ao povo judeu da Europa ocupada”.
Por que isto não é explicado? Por que expressões de duplo significado como “protecção da fronteira” tornaram-se a moeda corrente de uma cruzada dos media contra seres humanos semelhantes a nós que nos dizem para temer, principalmente o povo muçulmano? Por que jornalistas, cuja tarefa é dar uma informação honesta, tornaram-se cúmplices nesta campanha?
Afinal de contas, a Austrália teve alguns dos mais sinceros e corajosos jornais do mundo. Os seus editores eram agentes do povo, não do poder. O Sidney Monitor sob Edward Smith Hall revelou o domínio ditatorial do governador Darling e ajudou a trazer a liberdade de expressão à colónia. Hoje, a maior parte dos media australianos fala para o poder, não para o povo. Folheie as páginas dos principais jornais; olhe as notícias na TV. Tal como a protecção de fronteiras, temos a protecção da mente. Há um consenso sobre o que lemos, vemos e ouvimos: sobre como deveríamos definir a nossa política e ver o resto do mundo. Fronteiras invisíveis eliminam factos e opiniões que são inaceitáveis.
Isto é realmente um sistema brilhante, não exigindo instruções nem auto-censura. Os jornalistas sabem o que não fazer. Naturalmente, agora e então a censura é directa e bruta. A SBS [Special Broadcasting Service] proibiu os seus jornalistas de utilizarem a frase “terra palestina” para descrever a Palestina ocupada ilegalmente. Eles devem descrever estes territórios como “sujeitos a negociação”. Isto é o equivalente a alguma entidade tomar conta da sua casa a força de armas e o locutor da SBS descrever isso como “sujeito a negociação”.
Em nenhum outro país democrático a discussão pública da brutal ocupação da Palestina é tão limitada como na Austrália. Estaremos nós conscientes da escala absoluta do crime contra a humanidade em Gaza? Vinte e nove membros de uma família – bebés, avós – foram alvejados a tiro, explodidos, enterrados vivos, os seus lares arrasados com bulldozers. Leiam o relatório das Nações Unidas, redigido por um eminente juiz judeu, Richard Goldstone.
Aqueles que falam para o “arsenal da liberdade” estão a trabalhar arduamente para enterrar o relatório da ONU. Pois apenas uma nação, Israel, tem o “direito de existir” no Médio Oriente: apenas uma nação tem o direito de atacar outras. Apenas uma nação tem impunidade para manter um regime de apartheid racista com a aprovação do mundo ocidental e com o primeiro-ministro e o vice-primeiro-ministro da Austrália a bajular os seus líderes.
Na Austrália, qualquer desvio desta impunidade não explícita atrai uma campanha covarde de abuso e intimidação pessoal geralmente associada a ditaduras. Mas não somos uma ditadura. Somos uma democracia.
Será que somos? Ou seremos uma murdochracia?
Rupert Murdoch estabeleceu a agenda de guerra pouco antes da invasão do Iraque quando disse: “Vai haver danos colaterais. E se quisermos realmente ser brutais acerca disto, o melhor é que isto seja feito já”.
Mais de um milhão de pessoas foram mortas do Iraque devido àquela invasão – “um episódio”, segundo um estudo, “mais mortífero do que o genocídio de Rwanda”. Em nosso nome. Estamos nós conscientes disto na Austrália?
Certa vez caminhei ao longo da Rua Mutanabi, em Bagdad. A atmosfera era maravilhosa. O povo sentava-se em cafés, a ler. Músicos actuavam. Poetas declamavam. Pintores pintavam. Era o coração cultural da Mesopotâmia, a grande civilização à qual nós no Ocidente muito devemos, incluindo a palavra escrita. As pessoas com quem faleis eram tantos sunitas como xiitas, mas consideravam-se iraquianos. Eram educados e orgulhosos.
Hoje, estão mortos ou em fuga. A Rua Mutanabi foi destroçada em bocados. Em Bagdad, os grandes museus e bibliotecas foram saqueados. As universidades estão devastadas. E as pessoas que outrora tomavam café umas com as outras, e casavam-se umas com as outras, transformaram-se em inimigos. “Construir democracia”, disseram Howard, Bush e Blair.
Uma das minhas peças favoritas de Harold Pinter é Party Time. Passa-se num apartamento numa cidade como Sidney. Há uma festa em curso. As pessoas estão a beber bom vinho e a comer canapés. Parecem felizes. Estão a conversar e a sorrir. Elas são elegantes e muito auto-conscientes.
Mas algo está a acontecer lá fora, na rua, algo terrível, opressivo e injusto, pela qual as pessoas na festa partilham responsabilidade.
Há um efémero sentimento de desconforto, um silêncio, antes de a conversação e as risadas continuarem.
Quantos de nós vivem naquele apartamento?
Vamos dizer isto de um outro modo. Conheço uma excelente jornalista israelense chamada Amira Hass. Ela foi viver e informar a partir de Gaza. Perguntei-lhe porque fez isso. Explicou-se que a sua mãe, Hannah, quando era obrigada a marchar de um vagão de gado para o campo de concentração de Bergen-Belsen viu um grupo de mulheres alemãs a olharem os prisioneiros, simplesmente a olharem, sem dizerem nada, em silêncio. A sua mãe nunca esqueceu o que ela denominava este desprezível “olhar de lado”.
Acredito que se aplicarmos justiça e coragem aos assuntos humanos, começaremos a perceber o nosso mundo. Então, e só então, poderemos fazer progressos.
Contudo, se aplicarmos justiça na Austrália, fica complicado, não é? Porque então seremos obrigados a romper o maior dos nossos silêncios – não mais “olhar de lado” no nosso próprio país.
Na década de 1960, quando fui pela primeira à África do Sul a fim de cobrir o apartheid, fui recebido por pessoas decentes e liberais cujo silêncio cúmplice era o suporte daquela tirania. Elas disseram-me que os australianos e os sul-aficanos brancos tinham muito em comum, e estavam certas. As pessoas boas de Johannesburg podiam viver a uns poucos quilómetros de uma comunidade chamada Alexandra, à qual faltava a maior parte dos serviços básicos, com crianças contaminadas por doenças. Mas elas olhavam de lado e nada faziam.
Na Austrália, a nossa indiferença é diferente. Tornámo-nos altamente competentes em dividir e reinar: em promover aqueles australianos negros que nos dizem o que queremos ouvir. Nas conferências profissionais os seus discursos de abertura são aplaudidos, especialmente quando culpam o seu próprio povo e apresentam as desculpas que precisamos. Criámos gabinetes e comissões nas quais têm assento simpáticas e decentes pessoas liberais como a esposa do primeiro-ministro. E nada muda.
Certamente não gostamos de comparações com o apartheid da África do Sul. Isso rompe o silêncio australiano.
Quase no fim do apartheid, os negros sul-africanos estavam a ser presos na proporção de 851 por 1000 habitantes da população. Hoje, os negros australianos estão a ser presos numa proporção nacional que é cinco vezes mais alta. A Austrália ocidental prende os aborígenes a oito vezes o número do apartheid.
Em 1983, Eddie Murray foi morto numa cela da polícia em Wee Waa, nas Novas Gales do Sul, por “uma pessoa ou pessoas desconhecidas”. Foi assim que o médico legista (coroner) descreveu. Eddie era uma estrela em ascensão no rugby. Mas era negro e tinha de ser eliminado. Os pais de Eddie, Arthur e Leila Murray, lançaram uma das mais tenazes e corajosas campanhas por justiça de que tenho conhecimento. Eles enfrentaram a autoridade. Eles mostraram generosidade, paciência e conhecimento. E nunca cederam.
Quando Leila morreu em 2003, escrevi uma homenagem para o seu funeral. Descrevi-a como uma heroína australiana. Arthur ainda está a combater por justiça. Ele está na casa dos sessenta. É um idoso respeitado, um herói. Uns poucos meses atrás, a polícia em Narrabri ofereceu-lhe uma boleia para casa e ao invés disso levou-o para uma violenta corrida no seu furgão. Ele acabou num hospital, contundido e espancado. É assim que os heróis australianos são tratados.
Na mesma semana em que a polícia fez isto – tal como faz aos australianos negros, quase todos os dias – Kevin Rudd disse que o seu governo, e cito, “não tem uma ideia clara do que está a acontecer sobre o terreno”, na Austrália aborígene.
Quanta informação necessita o primeiro-ministro? Quantas ideias? Quantos relatórios? Quantas comissões reais? Quantos inquéritos? Quantos funerais? Estará ele consciente de que a Austrália aparece numa “lista da vergonha” internacional por ter deixado de erradicar o tracoma, uma doença prevenível da pobreza, que cega crianças aborígenes?
Em Agosto deste ano, as Nações Unidas mais uma vez distinguiram a Austrália com a espécie de vergonha outrora associada à África do Sul. Nós discriminamos com base na raça. É isto em poucas palavras. Desta vez a ONU apitou quanto à chamada “intervenção”, a qual começou com o governo Howard a caluniar comunidades aborígenes no Northern Territory com alegações de escravidão sexual e círculos pedófilos em “números impensáveis”, segundo o ministro dos assuntos indígenas.
Em Maio do ano passado, foram divulgados números oficiais e mal foram noticiados.
Das 7433 crianças aborígenes examinadas pelos médicos, 39 haviam sido mencionadas às autoridades por suspeita de abuso. Destas, um máximo de quatro possíveis casos foram identificados. Chega de “números impensáveis”. Naturalmente, existe abuso de crianças, tanto na Austrália negra como na Austrália branca. A diferença é que nenhuns soldados invadiram a Costa Norte; nenhuns pais brancos foram varridos para o lado; nenhuma pensão branca foi posta em quarentena. O que os médicos descobriram já era sabido: que crianças aborígenes estão em risco – devido aos efeitos da pobreza extrema e da negação de recursos num dos países mais ricos do mundo.
Milhares de milhões de dólares foram gastos – não a pavimentar estradas e construir casas, mas numa guerra legal de atrito contra comunidades negras. Entrevistei um líder aborígene chamado Puggy Hunter. Ele carregava uma pasta volumosa e sentou-se ao calor do ocidente australiano com as mãos na cabeça.
“Você está exausto”, disse eu.
Ele respondeu: “Olhe, gastei a maior parte da minha vida em reuniões, combates legais, argumentando em defesa do nosso direito de nascimento. Estou cansado até à morte, amigo”. Ele morreu pouco mais tarde, na casa dos quarenta.
Kevin Rudd apresentou desculpas formais aos Primeiros Australianos. Ele disse belas palavras. Para grande parte do povo aborígene, que valorizam uma cicatrização, as desculpas foram muito importantes. Contudo, o Sydney Morning Herald publicou um editorial notavelmente honesto. Descrevia as desculpas como “uma peça de minimização de destroços políticos” que “o governo Rudd movera rapidamente para limpar-se… de um modo que responda à ‘necessidades emocionais’ de alguns dos seus apoiantes”.
Desde aquelas desculpas, a pobreza dos aborígenes piorou. O prometido programa habitacional é uma brincadeira cruel. Nenhum fosso começou sequer a ser aterrado. Ao invés disso, o governo federal ameaçou comunidades no Northern Territory de que se não transferissem os seus preciosos direitos de propriedade absoluta (freehold leases), ser-lhe-iam negados os serviços básicos que nós, na Austrália branca, consideramos como garantidos.
Na década de 1970, foram concedidas às comunidades aborígenes amplos direitos à terra no Northern Territory, e John Howard começou a arrancar de volta estes direitos com subornos e intimidações. O governo trabalhista está a fazer o mesmo. Você vê, há negócios a serem feitos. O território contém extraordinária riqueza mineral, especialmente urânio. E a terra aborígene é pretendida como um vasto cemitério radioactivo. Isto é um negócio muitíssimo grande e companhias estrangeiras querem uma fatia do negócio.
Trata-se de uma continuação do lado mais negro da nossa história colonial: uma captura de terra.
Onde estão as vozes influentes que se levantaram contra isto? Onde estão os máximos órgãos legais? Onde estão aqueles nos media que nos dizem infindavelmente quão justos somos nós? Silêncio.
Mas deixem-nos não ouvir o seu silêncio. Deixem-nos prestar homenagem àqueles australianos que não estão silenciosos, que não olham de lado – aqueles como Barbara Shaw e Larissa Behrendt, e os líderes da comunidade Mutijulu e o seu tenaz advogado, George Newhouse, e Chris Graham, o editor destemido do National Indigenous Times. E Michael Mansell, Lyle Munro, Gary Foley, Vince Forrester e Pat Dodson, e Arthur Murray.
E deixem-nos celebrar o historiador da coragem e da verdade da Austrália, Henry Reynolds, que se levantou contra os partidários da supremacia branca que posavam como académicos e jornalistas. E os jovens que encerraram o campo de detenção de Woomera e a seguir resistiram aos bandidos políticos que ocuparam Sidney durante a conferência da APEC (Asia-Pacific Economic Cooperation) dois anos atrás. E louvar Ian Thorpe, o grande nadador, cuja voz levantada contra a intervenção encontrou eco entre os mimados heróis do desporto num país em que o fosso entre brancos e negros em termos de instalações desportivas e oportunidades dificilmente se fechou.
Os silêncios podem ser rompidos, se quisermos. Num dos maiores poemas da língua inglesa, Percy Shelley escreveu:
Levantem-se como leões após o sono
Em número invencível
Sacudam as suas cadeias sobre a terra como o orvalho
Que durante o sono caiu sobre vós
Vós sois muitos – eles são poucos. Rise like lions after slumber
In unvanquishable number
Shake your chains to earth like dew
Which in sleep has fallen on you
Ye are many – they are few
Mas precisamos apressar-nos. Uma mudança histórica está a ter lugar. As principais democracias ocidentais movem-se rumo ao corporatismo. A democracia tornou-se um plano de negócios (business plan), com um resultado financeiro (bottom line) para toda actividade humana, todo sonho, toda decência, toda esperança. Os principais partidos parlamentares estão agora dedicados às mesmas políticas económicas – socialismo para os ricos, capitalismo para os pobres – e a mesma política externa de servilismo à guerra sem fim.
Isto não é democracia. Isto está para a política assim como o McDonalds está para a comida.
Como mudarmos isto? Começamos por olhar para além dos estereótipos e clichés que são despejados sobre nós como notícias. Tom Paine [3] advertiu há muito que se nos fosse negado conhecimento crítico, deveríamos derrubar o que ele denominou a Bastilha das palavras. Tom Paine não tinha Internet, mas a Internet por si própria não é suficiente.
Precisamos de uma glasnost australiana, a palavra russa da era Gorbachev, a qual em termos gerais significa despertar, transparência, diversidade, justiça, desobediência. Foi Edmund Burke que se referiu à imprensa como um Quarto Poder. Proponho um Quinto Poder do povo que monitore, desconstrua e conteste as notícias oficiais. Em toda redacção, em toda faculdade de comunicações, os professores de jornalismo e os próprios jornalistas precisam ser desafiados quanto ao papel que representam na carnificina, injustiça e silêncio que tão frequentemente é apresentado como normal.
O público não é o problema. É verdade que algumas pessoas não se importam com nada – mas milhões sim, pois sei disso a partir das respostas aos meus próprios filmes. O que as pessoas querem é serem alistadas – um sentido de que as coisas importam, que nada é imutável, que o desemprego entre os jovens e a pobreza entre os velhos não é civilizado e é errado. O que aterroriza os agentes do poder é o despertar do povo: da consciência pública.
Isto já está a acontecer em países na América Latina onde pessoas comuns descobriram uma confiança em si próprias que não sabiam existir. Deveríamos juntar-nos a eles antes que a nossa própria liberdade de expressão seja silenciosamente retirada e a dissidência real seja posta fora da lei quando os poderes da polícia forem ampliados.
“A luta do povo contra o poder”, escreveu Milan Kundera, “é a luta da memória contra o esquecimento”.
Na Austrália, temos muito com que estar orgulhosos – se soubéssemos do que e o celebrássemos. Desde que Francis McCarty e Mary Palmer desembarcaram aqui, temos progredido só porque o povo tem falado alto, só porque as sufragistas levantaram-se, só porque os mineiros de Broken Hill ganharam a primeira semana de 35 horas do mundo, só porque pensões de um salário básico e auxílios à infância foram obras pioneiras na Nova Gales do Sul.
Durante a minha vida, tornámo-nos um dos lugares mais culturalmente diversos da terra e isto de modo geral aconteceu pacificamente. É um feito notável – até que olhamos para aqueles cuja civilização australiana raramente tem sido reconhecida, cujo génio para sobreviver, generosidade e indulgência raramente tem sido uma fonte de orgulho. Mas ainda assim eles permanecem, como escreveu Henry Reynolds, o murmúrio nos nossos corações. Pois eles são o que é único em relação a nós.
Acredito que a chave para o nosso auto-respeito – e o nosso legado à próxima geração – é a inclusão e reparação dos Primeiros Australianos. Por outras palavras, justiça. Não há mistério acerca do que tem de ser feito. O primeiro passo é um tratado que garanta direitos universais à terra e uma participação adequada dos recursos deste país.
Só então poderemos resolver, juntos, questões de saúde, pobreza, habitação, educação, emprego. Só então poderemos sentir um orgulho que provenha não de bandeiras e de guerra. Só então podemos tornar-nos uma nação verdadeiramente independente capaz de falar pela sensatez e justiça no mundo, e ser ouvida.
05/Novembro/2009
[1] La Perouse: Local na Austrália onde em 1885 foi estabelecida uma reserva para aborígenes. Durante a Grande Depressão, a partir de 1929, muitas famílias arruinadas passaram a residir naquela península, ao lado das reservas para os aborígenes.
[2] Gallipoli: Batalha da I Guerra Mundial, nos Dardanelos, entre os Aliados e o Império Otomano, na qual houve 130.784 mortos e 237.290 feridos de ambos os lados. Do total de baixas, mais de 35 mil era constituída por soldados australianos e neo-zelandeses. A batalha foi planeada por Churchill no Almirantado britânico e saldou-se num fracasso para os Aliados, pois não conseguiram abrir caminho através do Bósforo nem tomar Istambul.
[3] Thomas Paine (1737-1809): Um dos fundadores dos Estados Unidos. Autor do panfleto “Common Sense” e outras obras.
[*] Discurso pronunciado em 5 de Novembro no Sydney Opera House por ocasião da atribuição do prémio de direitos humanos da Austrália, o Sydney Peace Prize.
Este artigo encontra-se em Resistir.
Manifesto em defesa do MST 