Uma Linha Na Areia, por Uri Avnery

E mais uma vez, sapatos novos na mesma velha estrada.
Agora é Obama, com promessas de paz e a encher alguns corações na Palestina com esperança, mas como sempre, um presente envenenado.
Sem comentários. O texto que se segue ilustra a política que se segue quanto a uma brutal ocupação, humilhação, violações e canalhice ao mais alto nível.
Libertem A Palestina!

Bruno Piairo Teixeira

Uma Linha Na Areia, por Uri Avnery (7 de Novembro de 2009)

Mahmoud Abbas está farto. Anteontem, retirou a sua candidatura para as próximas eleições presidenciais na Autoridade Palestina.

Compreendo-o.

Sente-se traído. E o traidor é Barack Obama.

Há um ano, quando Obama foi eleito, despertou grandes esperanças no mundo muçulmano, entre o povo palestino, assim como no campo da paz israelita.

Finalmente um presidente americano que compreendera que tinha de pôr fim ao conflito israelo-palestiniano, não só para o bem dos dois povos, mas principalmente por causa dos interesses nacionais dos EUA. Esse conflito é em grande parte responsável pelas ondas de ódio anti-americano que varrem as massas muçulmanas de oceano a oceano.

Todo a gente acreditava que uma nova era havia começado. Em vez do Choque de Civilizações, do Eixo do Mal e de todos os outros slogans idiotas mas fatídicos da era Bush, uma nova abordagem de compreensão e de reconciliação, respeito mútuo e soluções práticas.

Ninguém esperava que Obama trocasse a linha pró-israelita incondicional por uma atitude pró-palestiniana unilateral. Mas todos pensaram que os EUA passariam a adoptar uma abordagem mais equilibrada e a pressionar os dois lados para a Solução dos Dois Estados. E, não menos importante, que o fluxo contínuo de verborragia hipócrita e moralista seria substituído por uma política não provocadora mas intencional, determinada, vigorosa.

Tão elevadas como eram então as esperanças, é agora profunda a decepção. Nada disto aconteceu. Pior: a administração Obama demonstrou pelas suas acções e omissões que não é verdadeiramente diferente da administração de George W. Bush.

Desde o primeiro momento, ficou claro que o critério decisivo viria na batalha dos colonatos.

Pode parecer que este é um assunto marginal. Se a paz deve ser alcançada dentro de dois anos, como o pessoal de Obama nos assegura, porquê preocuparmo-nos com mais umas poucas casas nos colonatos que serão desmantelados de qualquer forma? Portanto, vai haver alguns milhares de colonos mais para reinstalar. Grande coisa.

Mas o congelamento dos colonatos tem uma importância muito para além do seu efeito prático. Para voltar à metáfora do advogado palestiniano: «Estamos a negociar a divisão de uma pizza e, entretanto, Israel está a comer a pizza».

A insistência americana no congelamento dos colonatos em toda a Cisjordânia e em Jerusalém Oriental foi a bandeira da nova política de Obama. Como num filme Western, Obama traçou uma linha na areia e declarou: até aqui e não mais! Um verdadeiro cowboy não pode retirar-se dessa linha, sem ser visto como covarde.

Foi precisamente isso que aconteceu agora. Obama apagou a linha que ele próprio traçou na areia. Ele desistiu da exigência clara de um congelamento total. Binyamin Netanyahu e o seu pessoal anunciaram orgulhosamente – e sonoramente – que tinha sido alcançado um compromisso, não, Deus nos livre, com os palestinianos (quem são eles?), mas com os americanos. Eles permitiram a Netanyahu construir aqui e ali, em prol da “vida normal”, do “crescimento natural”, da “finalização de projectos não concluídos” e de outros pretextos transparentes deste tipo. Não haverá, evidentemente, quaisquer restrições em Jerusalém, a Indivisível Eterna Capital de Israel. Em suma, a actividade de colonização prosseguirá em pleno ritmo.

Para adicionar o insulto à injúria, Hillary Clinton deu-se ao trabalho de ir a Jerusalém, em pessoa, a fim de alagar Netanyahu com bajulação untuosa. Não há precedente para os sacrifícios que ele está a fazer em prol da paz, adulou ela.

Isso foi demais, mesmo para Abbas, cuja paciência e autocontrole são lendários. Ele retirou as consequências.

«Compreender tudo é perdoar tudo», dizem os franceses. Mas, neste caso, algumas coisas são difíceis de perdoar.

Certamente, pode-se compreender Obama. Ele está envolvido numa luta pela sua vida política na frente social, a batalha pela segurança de saúde. O desemprego continua a aumentar. As notícias do Iraque são más, o Afeganistão está rapidamente a transformar-se num segundo Vietname. Mesmo antes da cerimónia de entrega, o Prémio Nobel da Paz parece uma anedota.

Talvez ele sinta que o tempo não está maduro para provocar o todo-poderoso lóbi pró-Israel. Ele é um político, e política é a arte do possível. Seria possível perdoá-lo por isso, se ele admitisse francamente que é incapaz de concretizar as suas boas intenções nesta área por enquanto.

Mas é impossível perdoar o que está realmente a acontecer. Não o tratamento americano escandaloso do relatório Goldstone. Não o comportamento repugnante de Hillary em Jerusalém. Não a conversa mentirosa sobre a “contenção” das actividades de colonização. Tanto mais que tudo isto se passa com total desprezo pelos palestinianos, como se fossem apenas figurantes num musical.

Não só Obama desistiu da sua reivindicação de uma mudança completa na política estadunidense, como está de facto a continuar a política de Bush. E dado que Obama pretende ser o oposto de Bush, isso é traição dupla.

Abbas reagiu com a única arma que tem em seu poder: o anúncio de que vai deixar a vida pública.

A política americana no “Grande Médio Oriente” pode ser comparada a uma receita num livro de culinária: Pegue em cinco ovos, misture com farinha e açúcar…

Na vida real: Pegue num notável local, dê-lhe a parafernália de governo, realize “eleições livres”, treine as suas forças de segurança, transforme-o num subcontratado.

Esta não é uma receita original. Muitos regimes coloniais e de ocupação a usaram no passado. O que há de tão especial sobre a sua utilização pelos norte-americanos são os adereços “democráticos” para a peça. Mesmo que um mundo cínico não acredite numa palavra dela, há que pensar no público em casa.

Foi assim que foi feito no passado, no Vietname. Como foram escolhidos Hamid Karzai no Afeganistão e Nouri Maliki no Iraque. Como Fouad Siniora foi mantido no Líbano. Como Muhammad Dahlan estava para ser instalado na Faixa de Gaza (mas foi, no momento decisivo, antecipado pelo Hamas). Na maioria dos países árabes, não há necessidade desta receita, uma vez que os regimes estabelecidos já satisfazem as exigências.

Era suposto que Abbas preenchesse esse papel. Ele ostenta o título de presidente, ele foi eleito de forma justa, um general norte-americano está a treinar as suas forças de segurança. É verdade que nas eleições legislativas seguintes o seu partido foi estrondosamente derrotado, mas os americanos simplesmente ignoraram os resultados e os israelitas prenderam os parlamentares indesejáveis. O espectáculo tem de continuar.

Mas Abbas não está satisfeito em ser o ovo na receita americana.

Encontrei-o pela primeira vez há 26 anos. Depois da primeira Guerra do Líbano, quando nós (Matti Peled, Ya’acov Arnon e eu) fomos a Túnis para nos encontrarmos com Yasser Arafat, vimos Abbas primeiro. Esse foi o caso de cada vez que fomos a Túnis depois disso. A paz com Israel era a “secretária” de Abbas.

A conversações com ele eram sempre directas ao assunto. Não nos tornámos amigos, como com Arafat. Os dois eram de temperamento muito diferente. Arafat era um extrovertido, uma pessoa calorosa que gostava de gestos pessoais e de contacto físico com as pessoas com quem falava. Abbas é um auto-contido introvertido que prefere manter as pessoas à distância.

Do ponto de vista político, não há verdadeira diferença. Abbas está a prosseguir a linha fixada por Yasser Arafat em 1974: um Estado palestino dentro da fronteiras pré-1967, com Jerusalém Oriental como sua capital. A diferença está no método. Arafat acreditava na sua capacidade de influenciar a opinião pública israelita. Abbas limita-se às negociações com os governantes. Arafat acreditava que tinha de manter no seu arsenal todos os meios possíveis de luta: as negociações, actividade diplomática, luta armada, relações públicas, manobras tortuosos. Abbas coloca tudo num cesto: negociações de paz.

Abbas não quer tornar-se um marechal Pétain palestiniano. Ele não quer encabeçar um regime de Vichy local. Ele sabe que está numa encosta escorregadia e decidiu parar antes que seja tarde demais.

Penso, portanto, que a sua intenção de deixar o palco é grave. Creio na sua afirmação de que não se trata apenas de um jogo de barganha. Ele pode mudar a sua decisão, mas apenas se estiver convencido de que as regras do jogo mudaram.

Obama foi completamente surpreendido. Isso nunca aconteceu antes: um cliente americano, totalmente dependente de Washington, de repente revolta-se e põe condições. Isso foi exactamente o que Abbas fez agora, quando reconheceu que Obama não está disposto a cumprir a condição mais básica: congelar os colonatos.

Do ponto de vista americano, não há substituição. Há certamente algumas pessoas capazes na liderança palestina, bem como corruptos e colaboradores. Mas não há um que seja capaz de reunir em torno de si toda a população da Cisjordânia. O primeiro nome que surge sempre é Marwan Barghouti, mas ele está na prisão e o governo israelita já anunciou que não será libertado, mesmo que seja eleito. Além disso, não é claro que ele esteja disposto a desempenhar esse papel nas actuais condições. Sem Abbas, toda a receita americana se desfaz.

Netanyahu, também, foi totalmente surpreendido. Ele quer negociações fingidas, desprovidas de substância, como uma camuflagem para o aprofundamento da ocupação e o alargamento dos colonatos. Um “processo de paz” como substituto para a paz. Sem um líder palestiniano reconhecido, com quem pode ele “negociar”?

Em Jerusalém, ainda há esperança de que o anúncio de Abbas seja apenas uma manobra, que seria suficiente atirar-lhe algumas migalhas para fazê-lo mudar de ideias. Parece que eles não conhecem realmente o homem. O seu auto-respeito não lhe permitirá voltar trás, a menos que Obama lhe conceda um êxito político sério.

Do ponto de vista de Abbas, o anúncio da sua retirada é a arma do juízo final.

Fonte: Gush Shalom

Despedida de Zeca Afonso, por Nuno Corvacho

O grande Zeca Afonso. Que coragem incrível de ser-se cantor político num tempo de fascismo. Lembra-me Victor Jara do Chile pela mesma intensidade, carácter e dedicação no “acordar” do povo. A diferença entre um e outro é que Zeca Afonso morreu de cancro e Jara foi assassinado pelas forças militares de Pinochet que foi para o poder com ajuda dos Estados Unidos, o grande empreendedor da “democracia” no mundo.
Era um miúdo para saber quem era Zeca Afonso na altura da sua “fama”, mas sempre o conheci pela boca das outras pessoas que me falaram de quem fora, do que tinha despertado neles mesmos e do que tinha conseguido: eternizar-se no coração deste povo Português.
É bonito ter-se a noção e dar graças de se viver na mesma altura em que algumas pessoas como Zeca Afonso. Um grande bem haja para ele.

Bruno Piairo Teixeira

Despedida de Zeca Afonso aconteceu no Coliseu do Porto há 26 anos
Nuno Corvacho (23 de Outubro de 2009)

Muito se fala sobre o concerto que Zeca Afonso realizou em Janeiro de 1983, no Coliseu dos Recreios, e do qual a RTP fez uma gravação vídeo que é habitualmente recuperada na altura das comemorações do 25 de Abril, mas poucos decerto saberão que o cantor viria a actuar uns meses mais tarde, no Porto, naquela que seria, de facto, a sua despedida dos palcos. Sabe-se que, nesse mesmo ano, Zeca Afonso ainda deu a cara em alguns eventos informais em Coimbra (esse facto é, de resto, mencionado por Irene Flunser Pimentel na fotobiografia do cantor recentemente editada), de que chegou até a ser gravado um disco pirata. Mas o último grande concerto foi, sem dúvida, o do Coliseu do Porto, que aconteceu a 25 de Maio de 1983 perante uma sala esgotadíssima desde há cerca de dois meses.

Avelino Tavares, promotor musical da Mundo da Canção, foi a alma mater do evento e não tem dúvidas de que, depois disso, não mais Zeca Afonso voltou a apresentar-se em público. «Lembro-me até de, no dia seguinte ao concerto, ter ido levar o José Afonso e a Zélia [mulher dele] à estação de Campanhã porque ele ia a Coimbra receber a medalha de honra da cidade. E, na melhor das hipóteses, o que terá havido é uma festa de estudantes em que se terão cantado uns fados», recorda.

Para o concerto do Porto, e por exigência do cantor, todos os bilhetes foram postos à venda ao mesmo preço: 500 escudos. A procura foi enorme, a ponto, de, na altura, ter crescido o boato infundado de que haveria ingressos a serem «vendidos à mesa do café».

«ALGO DE IMPERDÍVEL ACONTECERA»

Durante o espectáculo, viveu-se no Coliseu uma «atmosfera emocional intensa«, que Tavares compara com a de Lisboa quatro meses antes: «Porventura com menos folclore, mas mais denso e sentido». Paulo Esperança, que preside hoje ao Núcleo Regional do Norte da Associação José Afonso, também lá estava nessa noite única. Recorda-se de o concerto, que acabou por ser uma espécie de retrospectiva da carreira do cantor, ter terminado com a “Grândola Vila Morena” e de, já na rua, as pessoas regressarem a entoar em coro canções do reportório de Zeca Afonso. «Nenhum de nós sabia se aquele viria a ser o último concerto. Mas todos tínhamos consciência de que algo de imperdível se passara», conta Paulo Esperança. O cantor já estava bastante debilitado (eram já claros os sinais da doença neuro-degenerativa que viria a vitimá-lo, quatro anos depois), precisou de sentar-se com alguma frequência e, para alguns coros, contou com o apoio de Sérgio Mestre, um seu habitual cúmplice. E também lá estiveram dois amigos da canção coimbrã, mais uma prova, para Avelino Tavares, de que não houve nenhum concerto em Coimbra, «caso contrário eles nunca teriam vindo cá de propósito».

AUTÓGRAFOS FRUSTRADOS

Aliás, foi o estado de saúde do cantor que levou, na altura, Avelino a travar algo que já planeara: «No dia 26, fomos almoçar a um restaurante na Ribeira, com o Fanhais e outros músicos, e eu levava um saco com os LP’s todos que eu tinha dele para me autografar. Eram muitos os discos que havia para assinar e, ao ver como ele já estava, acabei por desistir. Senti que tinha de ter respeito por ele».

Avelino Tavares chegou a ver Zeca Afonso, ao vivo, na Escola Infante D. Henrique, ainda antes do 25 de Abril, e esteve presente, no lendário concerto realizado sob alta vigilância da PIDE e que reuniu vários cantores de intervenção no Coliseu de Lisboa, em Março de 1974, quando já se pressentia o apodrecimento definitivo do Estado Novo.

Mas foi na revista Mundo da Canção, de que foi director e cujo primeiro número saiu em Dezembro de 1969, que Avelino Tavares mais tentou promover José Afonso, publicando-lhes as letras, bem como as de outros cantores igualmente comprometidos. Foi dele a primeira capa a cores da MC, correspondente ao número 12 (Novembro de 1970). Mais tarde, o cantor viria de novo a surgir na capa da revista, precisamente em Fevereiro de 1975, na esteira do lançamento do álbum Coro dos Tribunais.

Depois de muitos meses a iludir a censura com páginas em que textos de conteúdo mais político dividiam espaço com «anúncios pirosos» a depilatórios e calças de terylene, a revista acabou mesmo por ser apreendida quando saiu o número 34, por causa da existência de um suplemento dedicado às novas músicas. Só depois da revolução Avelino Tavares viria a conseguir repor em circulação os malfadados exemplares. Uma aventura editorial que durou até Junho de 1985, sempre sob a aura inspiradora de José Afonso: «Nós vamos todos desaparecer, mas ele vai ficar».

Fonte: Semanário do Grande Porto

Porquê Ser Vegetariano?

É uma pergunta que me fazem há mais de 14 anos. Juntei aqui uma compilação de razões e de perguntas frequentes que as pessoas colocam para esclarecer / debater e de certeza surpreender outras pelo desconhecimento das razões, dos factos e da questão: Porquê este modo de vida?
Boa leitura.

Bruno Piairo Teixeira

Porquê ser vegetariano?

Já que existe uma alternativa saudável e saborosa, prefiro evitar o sofrimento, exploração e morte de animais que sentem e sofrem, tal como os humanos, excluindo-os da minha alimentação

O que é o vegetarianismo?

O vegetarianismo é um regime alimentar que exclui da nossa alimentação os produtos animais. Existem várias razões pelas quais as pessoas podem optar por uma alimentação vegetariana, sejam elas razões de saúde, religiosas, espirituais, etc.

O que me preocupa é a fome/guerra/desemprego/trabalho infantil/abandono de animais domésticos/touradas. O vegetarianismo é pouco importante.

Estas questões são de facto muito importantes e cada pessoa deve fazer o máximo para que mudem. A grande diferença é que enquanto uma pessoa tem pouco ou nenhum poder para alterar a forma como certas coisas são feitas por outras pessoas, qualquer um de nós tem o poder de alterar o que está mais ao seu alcance – a sua alimentação. O vegetarianismo não impede nem se sobrepõe a outras causas justas que defenda.

Mas que diferença faz mais vegetariano menos vegetariano? Os mesmos animais vão continuar a ser criados e abatidos para consumo!

Nós, obviamente, acreditamos que faz toda a diferença. Desde logo porque acreditamos que todo o sofrimento que possa ser evitado, por insignificante que possa ser, vale a pena ser evitado. Em segundo lugar, é um facto que o mercado se regula pela lei da oferta e da procura; logo, se houver menos procura para a carne, a oferta irá eventualmente diminuir. Por fim, porque achamos que é nosso dever ético contribuir, através das acções e do exemplo, para a mudança que queremos ver na sociedade. Como disse Gandhi, “Sê a mudança que queres ver no mundo”.

Os animais não sofrem?

Os humanos, que também são animais, rejeitam ser explorados ou mortos porque preferem viver uma vida sem sofrimento. São dotados da capacidade de sofrer porque possuem um sistema nervoso central, que lhes permite compreender que uma situação, como ser explorado ou morto, é indesejada.
Os animais usados na alimentação possuem também esta característica e, tal como os humanos, são capazes de criar laços afectivos, sentir alegria, ansiedade e dor. Na verdade os animais sentem mais do que possamos pensar inicialmente.

Como é que podemos ter a certeza que os animais sofrem?

O sofrimento é um estado de consciência e por isso nunca pode ser observado. Podemos apenas senti-lo ou inferi-lo a partir de sinais exteriores. Quase todos os sinais exteriores de sofrimento, que nos levam a concluir que os outros humanos sofrem como nós, podem também ser observados noutras espécies, especialmente mamíferos e aves.
Estes sinais incluem contorção do corpo e da face, gemidos, uivos ou outras formas de chamamento, tentativas de evitar a fonte de dor, aparência de medo na possibilidade da sua repetição, entre outros. Para além disso, tal e qual como nos humanos, quando um animal sente dor existe um aumento inicial da pressão sanguínea, dilatação das pupilas, perspiração, aumento do ritmo cardíaco e, se o estímulo se mantiver, uma redução da pressão sanguínea.
Embora os humanos possuam um córtex cerebral mais desenvolvido do que os outros animais, esta zona é responsável por funções como o raciocínio e não por impulsos básicos, emoções ou sentimentos. A zona responsável por estas últimas funções, o diencéfalo, está bem desenvolvido em todos os mamíferos e aves.

Então também não come peixes / moluscos / caracóis? Eles não sofrem tanto.

Mesmo sendo animais que apresentam uma maior simplicidade, não significa que sofram menos e que possam ser explorados e mortos, unicamente para servir a fome dos humanos, quando estes possuem alternativas.
Inclusivamente, vários estudos científicos provam que estes animais são também capazes de sentir dor e desejo.

E as plantas… não sofrem?

Não, as plantas não sofrem nem possuem a capacidade de criar expectativas, nem de desejar não morrer. Elas não possuem qualquer centro de organização de informação (o cérebro) como os animais.
São capazes de responder a certos estímulos exteriores, que podem levar a alterações no seu desenvolvimento ou crescimento e possuem também um sistema hormonal complexo mas, até hoje, nunca foi encontrada qualquer prova cientificamente válida de que elas sofram. Será que elas sentem e ninguém ainda o descobriu? É improvável mas talvez. Pelo menos, por enquanto, devemos pensar naquilo que já sabemos, e o que se sabe é que os animais que comemos sentem e sofrem como os humanos.

E se estando numa ilha deserta, a tua sobrevivência dependesse de comer animais?

Hipoteticamente falando, é de admitir que muito de nós, vegetarianos éticos, nos alimentássemos de animais caso nos encontrássemos nessas circunstâncias extremas. Mas aquilo que nós faríamos em circunstâncias extremas, não deve de modo algum servir de padrão moral para aquilo que devemos fazer em circunstâncias normais.

Os animais são criados para os comermos!

O facto de um animal ser criado com um certo objectivo não altera a sua capacidade biológica de sentir sofrimento e de desejar não morrer. Este sentimento é igual nos humanos e faz com que qualquer pessoa não tenha o direito de explorar e matar outros humanos. Logo, o conceito de criar e matar animais para consumo humano é eticamente reprovável.

Se os animais comem outros animais, porque é que eu não hei-de comer? É a lei da Natureza.

Ao contrário dos outros animais, os humanos, por serem animais racionais, conseguem criar novas alternativas e são capazes de escolher uma mudança de hábitos. Um leão não consegue fazer nada disto e por isso nunca chega a pôr a hipótese de poder alterar os seus hábitos.

Um animal irracional não tem direitos porque não tem deveres.

Mesmo que de um ponto de vista jurídico os animais não possuam direitos, os humanos têm o dever moral de respeitar e o de não explorar ou provocar sofrimento desnecessário em indivíduos que possuam a capacidade de sentir dor e sofrimento, de criar laços afectivos, ou de ter o desejo de não morrer.

Os humanos são omnívoros e por isso têm de comer carne.

Os humanos de facto são omnívoros mas isso não os obriga necessariamente a comer carne permitindo-lhes, no entanto, a alimentarem-se maioritária ou exclusivamente de vegetais. Para além disto, o nosso corpo está melhor preparado para uma alimentação vegetariana do que para uma baseada em carne. Os animais carnívoros possuem garras, dentes caninos longos e um tracto digestivo curto. Por outro lado, os humanos possuem unhas curtas e os caninos são minúsculos quando comparados com os dos carnívoros. Os nossos pequenos dentes caninos estão mais preparados para trincar fruta do que rasgar a carne de um animal. Os nossos molares achatados e longo tracto digestivo estão melhor preparados para uma dieta vegetariana.

Não estão os humanos no topo da cadeia alimentar? São predadores.

Se deixarmos de comer carne o ecossistema deixa de funcionar. A escolha é sua, você está no sítio onde se quiser colocar. Pretende guiar as suas acções pela lei do mais forte ou pela ética? A sua força, ou supremacia, dá-lhe tanta razão a si para comeres outros animais – por supostamente estar no topo da cadeia alimentar -, como dá razão ao dono de escravos para suportar a escravatura, ou como dá razão ao patrão que recorre ao trabalho infantil apenas porque o pode fazer. Há muito tempo que esta cadeia foi manipulada/subvertida pela indústria da carne, de forma a produzir quantidades de carne suficiente. Os humanos não têm necessidade de comer carne e podem facilmente substitui-la por alimentos de origem vegetal. Manter o sistema como está é que levará, com certeza, à continuação do desequilíbrio entre a natureza e as acções do Homem.

Eu prefiro comer animais de criação extensiva. Esses não são maltratados.

De facto, o conceito de criação extensiva pressupõe um menor sofrimento durante a criação dos animais. No entanto, estes animais possuem, tal como os humanos, a capacidade de sentir sofrimento, dor e angústia e não desejam ser explorados nem mortos para servir as necessidades de outro animal. Assim, em qualquer tipo de criação animal, o respeito para com os animais que possuem estes sentimentos é violado. A criação extensiva também recorre aos mesmos métodos de transporte e morte utilizados na criação intensiva, sendo os animais mortos em condições extremas, agonizando até ao seu último momento de vida. Em nenhum dos sistemas se pode dizer que o animal não sofre ou sofre pouco. Para que se coma o animal ele teve que morrer e para ele morrer teve de sofrer. Não existe um método indolor de matar animais. Mesmo que existisse, apesar de ser uma maneira mais “simpática”, continuar-se-ia a explorar e a matar um animal com o único objectivo de saciar a sua fome, quando existem outras formas de o fazer sem causar sofrimento. A questão principal não deve ser: “como é que se pode diminuir o sofrimento?” mas sim “como é que se pode acabar com o sofrimento?”. A resposta está na vontade de cada um.

Não é pelo facto de eu me tornar vegetariano/a que vá fazer alguma diferença.

Faz sempre alguma diferença por mais pequena que pareça ser. Mas também não será por continuar a comer carne que os problemas terminam. É apenas uma questão ética. Se acha que os animais não devem sofrer para que nós os possamos comer, então deve pensar na possibilidade de se tornar vegetariano.

Comer carne não é contra natura.

Sim, mas também não é isso que tentamos dizer. O que dizemos é que se existe uma alternativa vegetariana à ingestão de carne que é mais saudável, saborosa, ecologicamente mais responsável e que, principalmente, rejeita a exploração dos animais, então cada um de nós deve reflectir sobre as vantagens que esta alimentação tem e se a consegue implementar no seu dia-a-dia. Se conseguir fazê-lo estará a fazer bem a si, ao planeta e aos animais.

Se nós não comermos os animais eles ficavam aí à solta.

Isso só seria possível se a partir de amanhã todas as pessoas se tornassem vegetarianas. Como esta mensagem não chega a todas as pessoas ao mesmo tempo, há tempo para que exista uma diminuição gradual desta indústria o que levará a que nunca exista a necessidade de libertar os animais, mas sim de deixar de os explorar.

A criação de carne alimenta uma indústria que dá emprego a muita gente.

Isso é verdade mas não seria a primeira vez que novos hábitos sociais mudariam a economia e, portanto, as tarefas a realizar por trabalhadores. Os empregos não iriam diminuir, apenas mudar. Qualquer ser humano tem uma grande capacidade de adaptação e muitas tarefas desaparecem frequentemente para dar lugar a outras.

Se não comermos os animais certas espécies extinguem-se.

E será eticamente correcto provocar sofrimento, explorar e matar animais de uma espécie com a justificação de evitar que a espécie se extinga?

É impossível sermos todos vegetarianos. Os esquimós, por exemplo, têm obrigatoriamente de se alimentar de animais.

O vegetarianismo parte do princípio de que se deve evitar, sempre que possível, a ingestão de animais. Se não for possível, tal como para os esquimós que não têm nenhuma outra fonte de nutrientes que não seja animal, então cada um, dentro das suas possibilidades, deve fazer o máximo para evitar o sofrimento animal. No entanto, cabe a cada um de nós a tarefa de criar as condições para que exista uma alternativa.

Uma alimentação vegetariana, como exclui a carne, tem menos diversidade do que uma alimentação com carne.

Pelo contrário. A alimentação vegetariana recorre a uma variedade de alimentos que não chegam a ser explorados numa alimentação não-vegetariana. Se experimentar o vegetarianismo, vai reparar que existe uma variedade surpreendente de alimentos, que não conhecia ou não usava, que podem ser cozinhados de mil e uma maneiras saborosas.

Se eu não comer carne não vou ingerir proteínas/ferro/calorias suficientes e posso ficar doente.

Se continuar a comer carne também pode ficar doente. Desde que faça uma alimentação equilibrada e diversificada não deverá ter problemas de carência de qualquer nutriente, pelo contrário, observará que a sua saúde melhora ou, no mínimo, mantém-se. Se continua com receio visite um nutricionista e diga-lhe que está a pensar tornar-se vegetariano/a. Assim não correrá nenhum risco. (ver link sobre nutrição)

Os vegetarianos não são pessoas pálidas e apáticas?

Não. Pessoas mal informadas e descuidadas na alimentação, por vezes movidas por motivos exclusivamente estéticos, optam pelo vegetarianismo, provocando-lhes problemas de saúde. Os vegetarianos são pessoas como eu ou você que simplesmente preferem ter uma alimentação livre de sofrimento e exploração. A sua saúde é o mais importante, mas não deve ser um obstáculo para que opte por uma alimentação livre de sofrimento. Se fizer uma transição gradual e informada, não deverá ter qualquer problema.

Eu gosto de comer carne. É muito difícil deixar a carne.

Já experimentou? Não custa muito. Experimente durante algumas semanas explorando receitas que ache que vai gostar e procurando novos alimentos. Se começar gradualmente a eliminar produtos de origem animal custa menos e, desta forma, dará tempo para que o seu corpo se habitue à sua nova alimentação. Peça ajuda a outros vegetarianos e/ou a um nutricionista.
Já experimentou comer comida vegetariana? Se for bem preparada, consegue ser bem mais apetitosa e saciante que a carne, para além de não lhe deixar o peso na consciência por ter provocado a morte a um animal.

O vegetarianismo é muito bom para vocês que não gostam de carne. Eu acho que nunca seria capaz…

O vegetarianismo ético não tem absolutamente nada a ver com gostar de carne ou não. Alguns, antes de serem vegetarianos, já sentiam uma certa “repulsa” pela carne, como se a nível subconsciente algo lhes dissesse que comer carne não era assim tão natural. Outros, poderiam considerar-se verdadeiros alarves a comer carne, o que não os impediu de se tornarem vegetarianos.
Quando falamos de abdicar do leite, iogurtes, ovos, etc., é virtualmente impossível encontrar alguém que tenha abdicado de tudo isso sem esforço. Sim, é preciso algum esforço, mas o que é importante é a tua motivação. E quando a tua motivação é tão nobre como evitar o sofrimento e contribuir para um mundo mais justo e pacífico, então ela é seguramente suficiente para ultrapassares os obstáculos que se te vão deparar.

Mas o animal já está morto. Eu não matei nada, só comi.

Pode não ter morto, mas deu dinheiro para o matar. Ao dar dinheiro por um animal ou parte dele está a criar um “efeito de prateleira”, ou seja, ao dar dinheiro pela carne está a retirar um produto e a deixar um lugar vago na prateleira. Com esse dinheiro o comerciante vai poder matar outro animal para substituir o que acabou de levar, preenchendo o lugar vazio.
De facto o animal que come já não sofre mais, mas ao alimentar esse negócio, está a fazer com que outros animais sofram em seguida.

Eu sei que os animais sofrem muito ao serem mortos, nos matadouros, e sou contra isso. Mas não devíamos nós pedir um abate mais humano, em vez de pedir às pessoas para deixarem de comer carne?

O problema fundamental aqui não é a forma como os animais são abatidos, mas o simples facto de eles serem abatidos. Pois por mais indolor que seja o abate, nós não encontramos justificação para tirar a vida a um ser senciente quando podemos fazer uma dieta vegetariana que é tão ou mais saudável do que a dieta omnívora.

Eu ouvi dizer que uma dieta à base de produtos de origem animal é muito má para a saúde. Mas se eu comer carne, digamos, uma vez por semana já não deve haver grande problema?

O pessoal aqui não é nutricionista, nem defende o vegetarianismo por motivos de saúde, embora essa seja obviamente uma opção válida. O vegetarianismo é defendido por nós numa base ética, e a nossa ética não se pode esquecer uma vez por semana.

Eu, como omnívoro, respeito quem é vegetariano. Por que raio os vegetarianos não respeitam a minha liberdade e me querem converter à força?

Nós queremos seguramente respeitar a liberdade de todos, incluindo aqueles que não concordam connosco. Mas também estamos empenhados em fazer respeitar os direitos dos animais não-humanos. E é por reconhecermos os direitos aos animais não humanos que aquilo que você entende como sendo a sua liberdade, nós entendemos como sendo uma violação dos direitos dos animais. Portanto, aquilo que nos pede é que nós nos calemos perante aquilo que consideramos uma injustiça, pedido esse que invariavelmente terá uma resposta negativa da nossa parte. Quanto à conversão pela força, obviamente que não se pretende converter ninguém ao vegetarianismo pela força. Já lá vai o tempo, pelo menos na nossa sociedade, em que as conversões eram impostas. Quando nós advogamos o vegetarianismo, não estamos a tentar converter alguém mas sim a dar-lhe a informação para que ela possa fazer a sua própria escolha, de forma informada.

Eu considero válidos os argumentos a favor do vegetarianismo, no entanto trata-se de algo demasiado fundamentalista para mim!

Fundamentalista por ir contra a crença geral de que não existe nada de errado em comer animais? Seriam também fundamentalistas aqueles que defendiam o fim da escravatura, quando a generalidade da sociedade a apoiava? Nós acreditamos que não. Para nós, o vegetarianismo é inerentemente compassivo e compreensivo. Ser vegetariano não é sobre ter certezas absolutas, ignorar as opiniões contrárias ou, muito menos, justificar os fins com os meios. Ser vegetariano é mais sobre questionar: questionar a prática institucionalizada de exploração de outros animais, e decidir em consciência qual é a melhor coisa a fazer. Quando muito, ser vegetariano é ter a forte convicção de que não é de modo algum justificável matar animais para comer. Mas nem é preciso tanto. Para ser vegetariano basta ter a dúvida de que seja justificável matar animais para comer e, em caso de dúvida, as pessoas justas são chamadas a optar por não condenar quem pode estar inocente. O vegetarianismo não é sobre julgar aquilo que está certo ou errado, aquilo que é o “bem” ou o “mal”, mas antes sobre procurar fazer melhor, pois não existe nada certo ou errado, mas geralmente existem alternativas melhores ou piores. No caso da nossa dieta, consideramos que uma dieta vegetariana é a melhor alternativa. Mas claro, não é por alguém ser vegetariano que é melhor ou pior do que qualquer outra pessoa.

Essa conversa sobre o vegetarianismo é muito bonita, mas se o vegetarianismo é assim tão bom como se explica que não haja mais vegetarianos?

Existem muitos milhões de vegetarianos e vegans em todo o mundo, e o número tem tendência a aumentar. No entanto, o que nós pretendemos é que muitas mais pessoas se tornem vegetarianas, para que se consiga diminuir significativamente o sofrimento animal causado pela criação e abate de animais para consumo. Os aspectos culturais e religiosos podem ser parte da explicação para o reduzido número de vegetarianos. O Cristianismo, em particular, tem sido usado no ocidente para justificar o domínio do Homem sobre os animais. É de ressaltar que são muitos os cristãos vegetarianos que advogam os direitos dos animais, não encontrando nada de incoerente entre a mensagem de Cristo e o respeito pelos animais, antes pelo contrário. No entanto, alguns usam passagens da Bíblia para justificar que os animais são seres inferiores, como poderiam também justificar a escravatura, ou a subjugação das mulheres, se estiverem empenhados numa interpretação literal. Infelizmente, esta última visão tem prevalecido e tem tido uma influência muito grande na sociedade. Um obstáculo que todos os que consideram tornar-se vegetarianos têm de enfrentar é a barreira inicial que os separa do vegetarianismo. Por vezes parece ser uma barreira de altura infinita.

O que vou eu comer? Onde vou eu comer? Vou ter de fazer a minha comida?! E quando sair com os amigos? Será que vou ser excluído/a de alguns eventos sociais?

À medida que as perguntas se acumulam, é natural que comeces a tentar arranjar justificações para não fazer coisa nenhuma e deixar a inércia vencer. Afinal, a dieta omnívora apresenta normalmente duas grandes vantagens: foi essa a dieta a que foi habituado/a deste pequeno/a, e é essa a dieta dos seus familiares e amigos. No entanto, se a sua consciência lhe disser que deve optar pelo vegetarianismo, ignore os obstáculos e siga em frente. A sua motivação é tudo o que precisa. Com o passar do tempo verá que é muito fácil ser vegetariano/a, e assim o seu testemunho do vegetarianismo seja coerente e compreensivo, os seus familiares e amigos respeitarão a sua opção (mesmo aqueles que inicialmente o/a massacrem com críticas).

A alimentação vegetariana não é mais cara?

Não. É claro que existem produtos congelados e prontos-a-comer que são obviamente caros porque implicam de um elevado nível de processamento e ainda porque são geralmente importados. Mas uma alimentação vegetariana sem estes pequenos luxos pode ser, sem dúvida, mais barata.

O que é que eu como se me tornar vegetariano?

Existem várias alternativas e cada dia aparecem mais. Os substitutos da carne mais comuns são o seitan, tofu, e diversas leguminosas, embora a oferta em supermercados e lojas de produtos dietéticos tenha vindo a aumentar muito nos últimos anos. Pergunte em lojas de produtos naturais ou a outros vegetarianos, procure receitas na Internet ou improvise.

Referências:

Centro Vegetariano – Clique aqui
LPDA – Clique aqui.
Pelos Animais – Clique aqui.

PARA MAIS INFORMAÇÕES CONSULTE AS SEGUINTES FONTES:

Em português:

- Liga Portuguesa dos Direitos do Animal – (Departamento de vegetarianismo e receitas vegetarianas)
- Centro Vegetariano

Uma história de Traição, por Uri Avnery

Uma história de Traição, por Uri Avnery (3 de Outubro de 2009)

Hoje é o 1196º dia de cativeiro para o soldado Gilad Shalit.

Um prisioneiro de guerra não deve ser deixado em cativeiro. Um soldado ferido não deve ser deixado no campo de batalha. O Estado subscreve um contrato não escrito com cada pessoa que se junta ao exército, e mais definitivamente com todos aqueles que servem numa unidade de combate.

O comportamento dos governos israelenses nestes 1196 dias, dos políticos e dos generais que são responsáveis por este ultraje, é uma violação deste contrato, uma traição da confiança. Em suma: uma infâmia. Enraivece e enfurece qualquer pessoa decente, e não apenas soldados combatentes.

A traição já está na terminologia utilizada. Nas palavras do Livro dos Provérbios (18:21): «A morte e a vida estão no poder da língua».

Um soldado capturado pelo inimigo numa acção militar é um prisioneiro de guerra – em qualquer língua, em qualquer país.

Gilad Shalit foi capturado numa acção militar. Era um soldado armado de uniforme. Neste contexto, não importa se a acção em si era legal ou ilegal, e se os captores eram soldados regulares ou guerrilheiros.

Gilad Shalit é um prisioneiro de guerra.

A negação começou no primeiro momento. O governo israelense recusou-se a chamar a captura pelo seu nome próprio e insistiu que se tratava de um “sequestro”.

Os disciplinados media israelenses, marchando em cadência por trás dos generais como a guarda prussiana, juntou-se ao coro. Nem um só jornal, nem uma só rádio ou um só apresentador de televisão falou alguma vez sobre o “prisioneiro de guerra”. Todos eles, quase sem excepção, desde o primeiro dia, falaram sobre o soldado “sequestrado”.

As palavras são importantes. Todos os exércitos estão familiarizados com o intercâmbio de prisioneiros de guerra. Geralmente, isso acontece após o fim das hostilidades, por vezes enquanto a guerra ainda está em curso. O exército liberta os combatentes inimigos em troca da libertação dos seus próprios soldados capturados.

Isto não se aplica às pessoas sequestradas. Quando os criminosos sequestram uma pessoa e a mantêm para o resgate, levanta-se a questão de saber se o preço deve ser pago. O pagamento pode encorajar mais sequestros e recompensar os criminosos.

No momento em que Gilad foi definido como “sequestrado”, ele foi condenado ao que se seguiu.

Também perdeu a sua honra como um soldado. Um soldado não é “sequestrado”. Os milhões de soldados capturados durante a II Guerra Mundial – alemães, russos, britânicos, americanos e todos os outros – ter-se-iam sentido insultados por qualquer sugestão de que tinham sido “sequestrados”.

O maior perigo que paira sobre a cabeça de Gilad desde que caiu em cativeiro não vem do Hamas, mas do nosso próprio exército.

Ficou claro que, dada uma oportunidade, o exército iria tentar libertá-lo pela força. Isso está profundamente enraizado no seu ethos básico: nunca ceder aos “raptores”.

Se eu fosse pai de Gilad e um homem de oração, rezaria todos os dias: Por favor, meu Deus, não deixes que o exército descubra onde Gilad está a ser mantido!

Os nossos comandantes do exército estão preparados para expor prisioneiros a riscos imensos, a fim de libertá-los pela força, em vez de trocá-los por prisioneiros palestinianos. Para eles é uma questão de honra.

Numa operação desse tipo, as vidas dos libertadores são colocados em risco. Mas, acima de tudo, é a vida do prisioneiro que está em perigo.

Uma das mais celebradas operações nos anais do exército israelense teve lugar em Entebbe, em Julho de 1976. Libertou os 98 passageiros de um avião sequestrado da Air France, que tinha sido forçado a aterrar no aeroporto de Entebbe, no Uganda. A operação suscitou admiração em todo o mundo. Apenas um dos libertadores perdeu a vida – o irmão de Binyamin Netanyahu.

Na intoxicação resultante do sucesso, um facto foi negligenciado: na ousada operação foram tomados enormes riscos. Se um só detalhe da complexa acção tivesse corrido mal, teria significado um desastre para os passageiros sequestrados. Poderia ter terminado num banho de sangue. Uma vez que foi bem sucedida, ninguém se atreveu a levantar questões.

Os resultados da operação para libertar os atletas sequestrados nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, foram muito diferentes. Quando a polícia alemã, com o incentivo do governo de Golda Meir, tentou libertá-los pela força, todos os atletas perderam as suas vidas. A maioria deles foram provavelmente mortos por balas das armas dos polícias alemães. De que outra forma explicar o facto de que, até ao dia de hoje, os governos de Israel e da Alemanha terem ambos recusado divulgar os resultados post mortem?

O mesmo aconteceu dois anos depois, quando o exército israelense recebeu ordens de Golda Meir e de Moshe Dayan para libertar as 105 crianças que estavam detidas por comandos palestinos na cidade de Ma’alot no norte de Israel. A acção fracassou, e 22 crianças e 3 professores perderam as suas vidas. Neste caso, também, parece que alguns – se não todos – foram mortos pelas balas dos libertadores. Estes relatórios post mortem também permanecem sem publicação.

O mesmo aconteceu em 1994 quando o exército tentou libertar o soldado “sequestrado” Nachshon Waxman, na Cisjordânia. O exército tinha informações exactas, a acção foi planeada meticulosamente, algo correu mal, e o prisioneiro foi morto.

Recentemente soube-se que um oficial superior tinha apelado aos seus soldados que cometessem suicídio em vez de serem capturados. Ele deu ordens para disparar sobre os “raptores”, mesmo quando isso significa pôr em perigo a vida do soldado capturado.

É bem possível que um dos motivos para o prolongamento do sofrimento de Gilad Shalit resida na esperança dos comandantes do exército de obter informações sobre o seu paradeiro, para assim tentar libertá-lo pela força. Não é segredo que a Faixa de Gaza está enxameada de informadores. As dezenas de “assassinatos selectivos” e muitas das acções da operação “Chumbo Fundido” não teriam sido possíveis sem uma densa rede de colaboradores, recrutados durante os longos anos de ocupação.

Incrivelmente – roça o milagre – o serviço de segurança israelense tem sido incapaz de cumprir essa esperança. Parece que os captores de Shalit estão a conseguir manter sigilo rigoroso. Isso, por sinal, explica por que os seus captores se recusaram terminantemente que ele se encontrasse com os representantes da Cruz Vermelha Internacional e a transmitir cartas de e para ele, incluindo parcelas (que podiam muito bem ter contido dispositivos de localização sofisticados). Isso pode ter salvo a sua vida.

Pode-se supor que o vídeo que foi transmitido ontem pelo mediador alemão, em troca da libertação de 21 prisioneiros palestinos do sexo feminino, foi meticulosamente preparado de forma a impedir qualquer possibilidade de identificar o lugar onde ele está a ser mantido.

Este caso também demonstra a superioridade absoluta da máquina de propaganda israelense sobre todos os concorrentes – se houver algum.

Os meios de comunicação mundiais adoptaram, quase sem excepção, a terminologia israelense. Em todo o mundo, eles falam sobre o soldado israelense “sequestrado”, em vez de sobre um prisioneiro de guerra. Jornais britânicos ou alemães que usam esta palavra não sonhariam em aplicá-la a um dos seus próprios soldados no Afeganistão.

O nome de Gilad Shalit foi pronunciado pelos líderes mundiais como se ele fosse, no mínimo, um deles. Nicolas Sarkozy e Angela Merkel falaram sobre ele livremente, certos de que os ouvintes em casa sabiam quem ele era. Libertar o “soldado israelense sequestrado” tornou-se um objectivo declarado de vários governos.

Esta formulação é, por si só, um triunfo para a propaganda israelense. As negociações são sobre uma troca de prisioneiros entre Israel e o Hamas, com mediação alemã e/ou egípcia. Uma troca de prisioneiros tem dois lados – Shalit de um lado, prisioneiros palestinos do outro. Mas em todo o mundo, como em Israel, eles falam apenas sobre a libertação do soldado israelense. Os prisioneiros palestinianos a serem libertados são apenas objectos, mercadoria, não seres humanos. Mas não contam eles também os dias, assim como os seus pais e os seus filhos?

O maior obstáculo para essa troca é mental, uma questão de linguagem. Se tivesse sido sobre “combatentes palestinos” não teria havido nenhum problema. A libertação de combatentes em troca de um combatente. Mas o nosso governo – como todos os governos coloniais antes dele – não pode reconhecer os insurgentes locais como “combatentes” que actuam ao serviço do seu povo. O ethos colonial – como o “código ético” do nosso ético professor Assa Kasher – exige que eles sejam chamados de “terroristas”, com “sangue nas suas mãos”, criminosos de base, vis assassinos.

Uma canção irlandesa tocante conta a história de um combatente irlandês pela liberdade que, na manhã da sua execução, pede para ser tratado como um «soldado irlandês» e ser morto a tiro, não «enforcado como um cão». O seu pedido foi negado.

Quando se fala sobre a libertação de “centenas de assassinos” em troca de um soldado israelense, corre-se contra um enorme obstáculo psicológico. A vida e a morte no poder da língua.

Em vários aspectos, o caso de Gilad Shalit pode ser visto como uma metáfora para todo o conflito histórico.

Palavras carregadas ditam o comportamento dos líderes. As narrativas diferentes e opostas impedem um entendimento entre as partes, mesmo sobre assuntos de menor importância. Os obstáculos psicológicos são imensos.

A grande vantagem de propaganda do governo israelense, tão claramente demonstrada no caso Shalit, também está agora a ser testada na questão do relatório Goldstone. Os esforços do governo israelense para impedir o envio do relatório ao Conselho de Segurança das Nações Unidas ou à Assembleia Geral, ou ao Tribunal Penal Internacional em Haia, são agora apoiados pelo presidente Barack Obama e pelos líderes europeus. Os habitantes da Faixa de Gaza, como os palestinianos nas prisões israelitas, tornaram-se meras peças, objectos sem um rosto humano.

E acerca de Gilad Shalit: as negociações devem ser aceleradas, a fim de efectuar uma troca de prisioneiros no futuro mais próximo. Até lá, deve ser dada aos mediadores uma garantia inequívoca de que não haverá esforço para libertá-lo pela força, em troca de um acordo pelo Hamas para que o deixe encontrar-se com pessoal da Cruz Vermelha, e talvez também com a sua família.

Tudo o resto é manipulação e palavreado.

Fonte: Gush Shalom

Manifesto em Defesa do MST

MSTManifesto em defesa do MST

Contra a violência do agronegócio e a criminalização das lutas sociais

Para subscrever esse manifesto, clique aqui.

As grandes redes de televisão repetiram à exaustão, há algumas semanas, imagens da ocupação realizada por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em terras que seriam de propriedade do Sucocítrico Cutrale, no interior de São Paulo. A mídia foi taxativa em classificar a derrubada de alguns pés de laranja como ato de vandalismo.

Uma informação essencial, no entanto, foi omitida: a de que a titularidade das terras da empresa é contestada pelo Incra [1] e pela Justiça. Trata-se de uma grande área chamada Núcleo Monções, que possui cerca de 30 mil hectares. Desses 30 mil hectares, 10 mil são terras públicas reconhecidas oficialmente como devolutas e 15 mil são terras improdutivas. Ao mesmo tempo, não há nenhuma prova de que a suposta destruição de máquinas e equipamentos tenha sido obra dos sem-terra.

Na ótica dos setores dominantes, pés de laranja arrancados em protesto representam uma imagem mais chocante do que as famílias que vivem em acampamentos precários desejando produzir alimentos.

Bloquear a reforma agrária

Há um objetivo preciso nisso tudo: impedir a revisão dos índices de produtividade agrícola – cuja versão em vigor tem como base o censo agropecuário de 1975 – e viabilizar uma CPI sobre o MST. Com tal postura, o foco do debate agrário é deslocado dos responsáveis pela desigualdade e concentração para criminalizar os que lutam pelo direito do povo. A revisão dos índices evidenciaria que, apesar de todo o avanço técnico, boa parte das grandes propriedades não é tão produtiva quanto seus donos alegam e estaria, assim, disponível para a reforma agrária.

Para mascarar tal fato, está em curso um grande operativo político das classes dominantes objetivando golpear o principal movimento social brasileiro, o MST. Deste modo, prepara-se o terreno para mais uma ofensiva contra os direitos sociais da maioria da população brasileira.

O pesado operativo midiático-empresarial visa isolar e criminalizar o movimento social e enfraquecer suas bases de apoio. Sem resistências, as corporações agrícolas tentam bloquear, ainda mais severamente, a reforma agrária e impor um modelo agroexportador predatório em termos sociais e ambientais, como única alternativa para a agropecuária brasileira.

Concentração fundiária

A concentração fundiária no Brasil aumentou nos últimos dez anos, conforme o Censo Agrário do IBGE. A área ocupada pelos estabelecimentos rurais maiores do que mil hectares concentra mais de 43% do espaço total, enquanto as propriedades com menos de 10 hectares ocupam menos de 2,7%. As pequenas propriedades estão definhando enquanto crescem as fronteiras agrícolas do agronegócio.

Conforme a Comissão Pastoral da Terra (CPT, 2009) os conflitos agrários do primeiro semestre deste ano seguem marcando uma situação de extrema violência contra os trabalhadores rurais. Entre janeiro e julho de 2009 foram registrados 366 conflitos, que afetaram diretamente 193.174 pessoas, ocorrendo um assassinato a cada 30 conflitos no 1º semestre de 2009. Ao todo, foram 12 assassinatos, 44 tentativas de homicídio, 22 ameaças de morte e 6 pessoas torturadas no primeiro semestre deste ano.

Não violência

A estratégia de luta do MST sempre se caracterizou pela não violência, ainda que em um ambiente de extrema agressividade por parte dos agentes do Estado e das milícias e jagunços a serviço das corporações e do latifúndio. As ocupações objetivam pressionar os governos a realizar a reforma agrária.

É preciso uma agricultura socialmente justa, ecológica, capaz de assegurar a soberania alimentar e baseada na livre cooperação de pequenos agricultores. Isso só será conquistado com movimentos sociais fortes, apoiados pela maioria da população brasileira.

Contra a criminalização das lutas sociais

Convocamos todos os movimentos e setores comprometidos com as lutas a se engajarem em um amplo movimento contra a criminalização das lutas sociais, realizando atos e manifestações políticas que demarquem o repúdio à criminalização do MST e de todas as lutas no Brasil.

Assinam esse documento:

Eduardo Galeano – Uruguai
István Mészáros – Inglaterra
Ana Esther Ceceña – México
Boaventura de Souza Santos – Portugal
Daniel Bensaid – França
Isabel Monal – Cuba
Michael Lowy – França
Claudia Korol – Argentina
Carlos Juliá – Argentina
Miguel Urbano Rodrigues – Portugal
Carlos Aguilar – Costa Rica
Ricardo Gimenez – Chile
Pedro Franco – República Dominicana

Brasil:
Antonio Candido
Ana Clara Ribeiro
Anita Leocadia Prestes
Andressa Caldas
André Vianna Dantas
André Campos Búrigo
Augusto César
Carlos Nelson Coutinho
Carlos Walter Porto-Gonçalves
Carlos Alberto Duarte
Carlos A. Barão
Cátia Guimarães
Cecília Rebouças Coimbra
Ciro Correia
Chico Alencar
Claudia Trindade
Claudia Santiago
Chico de Oliveira
Demian Bezerra de Melo
Emir Sader
Elias Santos
Eurelino Coelho
Eleuterio Prado
Fernando Vieira Velloso
Gaudêncio Frigotto
Gilberto Maringoni
Gilcilene Barão
Irene Seigle
Ivana Jinkings
Ivan Pinheiro
José Paulo Netto
Leandro Konder
Luis Fernando Veríssimo
Luiz Bassegio
Luis Acosta
Luisa Santiago
Lucia Maria Wanderley Neves
Marcelo Badaró Mattos
Marcelo Freixo
Marilda Iamamoto
Mariléa Venancio Porfirio
Mauro Luis Iasi
Maurício Vieira Martins
Otília Fiori Arantes
Paulo Arantes
Paulo Nakatani
Plínio de Arruda Sampaio
Plínio de Arruda Sampaio Filho
Renake Neves
Reinaldo A. Carcanholo
Ricardo Antunes
Ricardo Gilberto Lyrio Teixeira
Roberto Leher
Sara Granemann
Sandra Carvalho
Sergio Romagnolo
Sheila Jacob
Virgínia Fontes
Vito Giannotti

[1] INCRA : Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária

Para subscrever esse manifesto, clique aqui.

Este manifesto encontra-se em aqui.

Por Trás do Prémio Nobel da Paz de 2009, por Thierry Meyssan

Por Trás do Prémio Nobel da Paz de 2009, por Thierry Meyssan [*]

A atribuição do Prémio Nobel da Paz deu lugar a um coro de elogios entre os líderes da Aliança Atlântica, mas também suscitou cepticismo no mundo. Ao invés de debater as razões que poderiam justificar esta escolha surpreendente, Thierry Meyssan expõe a corrupção do Comité Nobel e as relações que unem o seu presidente, Thorbjørn Jagland, aos colaboradores de Obama.
“Esta manhã, quando ouvia as notícias, a minha filha aproximou-se e disse-me: ‘Papá, ganhaste o Prémio Nobel da paz’ “. Esta é a comovente história que o presidente dos Estados Unidos contou aos acomodados jornalistas para comprovar que nunca desejou esta distinção e foi o primeiro a ficar surpreendido. Sem procurar saber mais, os títulos que aqueles jornalistas imediatamente apresentaram nos seus jornais falavam da “humildade” do homem mais poderoso do mundo.

Para dizer a verdade, não sabemos o que mais surpreende: a atribuição de uma tão prestigiosa distinção a Barack Obama, a encenação grotesca que a acompanha, ou ainda o método utilizado para corromper o júri e retirar a este prémio a sua vocação inicial.

Em primeiro lugar, relembremos que, segundo o regulamento do Comité Nobel, as candidaturas são apresentadas por instituições (parlamentos nacionais e academias políticas) e por personalidades qualificadas, principalmente magistrados e antigos laureados. Em teoria, uma candidatura pode ser apresentada sem que o candidato tenha sido disso avisado. Não obstante, assim que o júri decide, estabelece uma ligação directa com o candidato de modo a que ele seja informado uma hora antes da conferência de imprensa. Pela primeira vez na sua história, o Comité Nobel terá omitido esta cortesia. Isso aconteceu porque, assegura-nos o seu porta-voz, o Comité não ousaria acordar o Presidente dos EUA à noite. Talvez ignore que há conselheiros que se reúnem na Casa Branca para receber as chamadas urgentes e acordar o presidente se necessário.

O gracioso número protagonizado pela sua filha anunciando o Prémio Nobel ao seu papá não basta para dissipar o mal-estar provocado por esta distinção. Segundo o desejo de Alfred Nobel, o prémio recompensa «a personalidade que [durante o ano precedente] mais ou melhor contribuiu para a aproximação dos povos, a supressão ou redução dos exércitos permanentes, a aproximação e divulgação dos avanços pela paz». No espírito do fundador, tratava-se de manter uma acção militante e não de atribuir um diploma de boas intenções a um chefe de estado. Tendo os laureados por vezes escarnecido do direito internacional depois de terem recebido o prémio, o Comité Nobel decidiu, há quatro anos, não voltar a recompensar um acto particular mas honrar apenas personalidades que tenham consagrado a sua vida à paz. Deste modo, Barack Obama teria sido o mais meritório dos militantes da paz em 2008 e não teria cometido nenhum atentado ao direito internacional em 2009. Sem mencionar os detidos em Guantánamo e em Bagram, nem os afegãos e os iraquianos confrontados com uma ocupação estrangeira, que pensarão disto os hondurenhos esmagados por uma ditadura militar ou os paquistaneses cujo país se tornou o novo alvo do Império?

Vamos à questão fundamental, a qual a “comunicação” da Casa Branca e os media anglo-saxónicos querem esconder do público: os laços sórdidos entre Barack Obama e o Comité Nobel.

Em 2006, o Comando Europeu (isto é, o comando regional das tropas dos EUA cuja autoridade abrangia então simultaneamente a Europa e o essencial da África) solicitou ao senador de origem queniana Barack Obama que participasse numa operação secreta entre agências (CIA-NED-USAID-NSA). Tratava-se de utilizar o seu estatuto de parlamentar para efectuar um périplo africano que permitisse ao mesmo tempo defender os interesses dos grupos farmacêuticos (face às produções não patenteadas) e de rechaçar a influência chinesa no Quénia e no Sudão [1] . Apenas o episódio queniano nos interessa aqui.

A desestabilização do Quénia

Barack Obama e a sua família, acompanhados de um assessor de imprensa (Robert Gibbs) e de um conselheiro político-militar (Mark Lippert) chegam a Nairobi num avião especial fretado pelo Congresso. O seu avião é seguido por um segundo, este fretado pelo Exército dos EUA, transportando uma equipa de especialistas em guerra psicológica comandada pelo general J. Scott Gration, pretensamente à beira da reforma.

O Quénia estava então em plena expansão económica. Logo após os começos da presidência de Mwai Kibaki, o crescimento passou de 3,9% a 7,1% do PIB e a pobreza desceu de 56% para 46%. Estes resultados excepcionais foram obtidos reduzindo os laços económicos pós-coloniais com os anglo-saxónicos e substituindo-os por acordos mais justos com a China. Para acabar com o milagre queniano, Washington e Londres decidiram derrubar o presidente Kibaki e impor um oportunista devoto, Raila Odinga [2] . Neste sentido, o National Endowment for Democracy suscitou a criação duma nova formação política, o Movimento laranja, e armou secretamente uma “revolução colorida” por ocasião das eleições legislativas seguintes em Dezembro de 2007.

O senador Obama é acolhido como um filho do país e a sua viagem é extraordinariamente mediatizada. Intromete-se na vida política local e participa nas reuniões de Raila Odinga. Apela a uma “revolução democrática” enquanto o seu “acompanhante”, general Gration, entrega a Odinga um milhão de dólares líquidos. Estas intervenções desestabilizam o país e suscitam os protestos oficiais de Nairobi junto de Washington.

Por ocasião deste périplo, Obama e o general Gration reportam ao general James Jones (então chefe do Comando Europeu e comandante supremo da NATO) em Estugarda, antes de regressar aos EUA.

A operação continua. Madeleine Albright, na qualidade de presidente do NDI (a filial do National Endowment for Democracy [3] especializada no tratamento de partidos de esquerda) viaja até Nairobi, onde supervisiona a organização do Movimento Laranja. Depois, John McCain, na qualidade de presidente do IRI (a filial do National Endowment for Democracy especializada no tratamento dos partidos de direita) vem completar a coligação de oposição no tratamento de pequenas formações de direita [4] .

Aquando das eleições legislativas de Dezembro de 2007, uma sondagem financiada pelo USAID anuncia a vitória de Odinga. No dia das eleições, John McCain declara que o presidente Kibaki falseou o resultado do escrutínio a favor do seu partido e que na realidade é a oposição conduzida por Odinga que ganhou. A NSA, em parceria com os operadores locais de rádio, dirige SMS anónimos à população. Nas zonas povoadas pelos Luos (as etnias de Odinga), estes dizem: “Caros Quenianos, os Kikuyus roubaram o futuro das nossas crianças… Devemos tratá-los da única forma que compreendem… a violência”. Entretanto, nas zonas povoadas pelos Kikuyus, os SMS dizem: «não será derramado o sangue de nenhum Kikuyu inocente. Massacrá-los-emos até ao coração da capital. Para que se faça justiça, estabeleçam uma lista dos Luos que conhecem. Enviar-vos-emos os números de telefone para onde transmitir essas informações». Em poucos dias, esse país sereno perde-se em confrontos sociais. Os distúrbios fazem mais de 1 000 mortos e 300 mil desalojados. 500 mil postos de trabalho são destruídos.

Madeleine Albright está de regresso. Propõe a sua mediação entre o presidente Kibaki e a oposição que tenta derrubá-lo. Com discrição, distancia-se e coloca em cena o Oslo Center for Peace and Human Rights [N. do T.: Centro de Oslo para a Paz e Direitos Humanos]. Esta respeitada ONG é novamente presidida pelo antigo primeiro-ministro da Noruega, Thorbjørn Jagland. Rompendo com a tradição de imparcialidade do Centro, ele coloca dois mediadores em cena, cujas despesas são integralmente pagas pelo NDI de Madeleine Albright (quer dizer, pelo orçamento do Departamento de Estado dos EUA): um outro antigo primeiro-ministro norueguês, Kjell Magne Bondevik, e o antigo secretário-geral da ONU, Kofi Annan (o ganês tem estado muito presente nos estados escandinavos depois de ter casado com a sobrinha de Raoul Wallenberg).

Para estabelecer a paz civil a aceitar o compromisso que lhe impõem, o presidente Kibaki é obrigado a aceitar criar um posto de primeiro-ministro e de o confiar a Raila Odinga. Este começa imediatamente a reduzir as trocas com a China.

Pequenos presentes entre amigos

Se a operação queniana acabou ali, a vida dos protagonistas continua. Thorbjørn Jagland negoceia um acordo entre o National Endowment for Democracy e o Oslo Center, formalizado em Setembro de 2008. Uma fundação conjunta é criada em Minneapolis permitindo à CIA subsidiar indirectamente a ONG norueguesa. Esta intervém por conta de Washington em Marrocos e sobretudo na Somália [5] .

Obama é eleito presidente dos EUA. Odinga proclama vários dias de festa nacional no Quénia para celebrar o resultado das eleições nos EUA. O General Jones torna-se conselheiro de segurança nacional. Nomeia Mark Lippert como chefe de gabinete e o general Gration como adjunto.

Durante a transição presidencial nos EUA, o presidente do Oslo Center, Thorbjørn Jagland, é eleito presidente do Comité Nobel, não obstante o risco que representa para a instituição um político tão artificioso [6] . A candidatura de Barack Obama ao Prémio Nobel da Paz é enviada o mais tardar a 31 de Janeiro de 2009 (data limite regulamentar [7] ), ou seja, doze dias depois da sua tomada de posse na Casa Branca. Vivos debates animam o Comité que não chegou ainda a um acordo sobre um nome no princípio de Setembro, conforme previsto pelo calendário habitual [8] . A 29 de Setembro, Thorbjørn Jagland é eleito secretário-geral do Conselho da Europa em seguimento de um acordo de secretaria ente Washington e Moscovo [9] . Esta boa acção pede outra em troca. Ainda que a qualidade de membro do Comité Nobel seja incompatível com uma função política executiva de relevo, Jagland não desiste. Argumenta que a letra do regulamento interdita a acumulação de uma função ministerial e nada diz sobre o Conselho da Europa. Chega então a Oslo a 2 de Outubro. No mesmo dia, o Comité designa o Presidente Obama Prémio Nobel da paz de 2009.

No seu comunicado oficial, o Comité declara, não por graça: “é muito raro que uma pessoa, na instância Obama, tenha conseguido captar a atenção de todos e dar-lhes esperança num mundo melhor. A sua diplomacia baseia-se no conceito de acordo com o qual aqueles que governam o mundo devem fazê-lo guiados por um conjunto de valores e de comportamentos partilhados pela maioria dos habitantes do planeta. Durante 108 anos, o Comité do Prémio Nobel procurou estimular este estilo de política internacional de que Obama é o principal porta-voz”.

Por seu turno, o feliz laureado declarou: “Aceito a decisão do Comité Nobel com surpresa e profunda humildade. (…) Aceitarei esta recompensa como um apelo à acção, um apelo lançado a todos os países para que enfrentem os desafios comuns do século XXI”. Deste modo, este homem “humilde” crê encarnar “todos os países”. Aqui está algo que não augura nada de pacífico.

13/Outubro/2009

Notas:
[1] Déclaration de Barack Obama à l’annonce du prix Nobel de la paix 2009 , Réseau Voltaire, 9 octobre 2009. [2] Sobre os pormenores desta operação ver Le Rapport Obama, de Thierry Meyssan, a publicar.
[3] Raila Odinga é o filho de Jaramogi Oginga Odinga, que teve por principal conselheiro político o pai de Barack Obama.
[4] ” NED, nébuleuse de l’ingérence “démocratique “”, por Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 22 Janeiro de 2004.
[5] Em tempos, os EUA haviam criado com estas um partido, dirigido por Tom Mboya. Tratava-se então de lutar contra a influência russa e mesmo já chinesa.
[6] O Oslo Center participou igualmente na desestabilização do Irão, aquando das eleições presidenciais, encaminhando os fundos para o antigo presidente Khatami.
[7] Vice-presidente da Internacional Socialista, Thorbjørn Jagland é um fervoroso partidário da NATO e da entrada d Noruega na União Europeia. Frequenta as elites mundiais e participou nos trabalhos do Council on Foreign Relations, da Comissão Trilateral e do Grupo de Bilderberg. O seu percurso político foi manchado por vários escândalos de corrupção envolvendo os seus próximos, nomeadamente o seu amigo e ministro do plano Terje Rød Larsen (actual coordenador da ONU para as negociações no Médio Oriente).
[8] Foram entregues 205 candidaturas. Mas, em conformidade com o regulamento, apenas 199 foram consideradas aceitáveis. Atingido esse número, não era possível o Comité Nobel juntar nomes suplementares, no curso das suas deliberações.
[9] O prémio deveria ser entregue a 9 de Outubro. Por razões de organização, o laureado deveria ter sido determinado o mais tardar a 15 de Setembro. Moscovo não pretendia Jagland, mas opunha-se ao polaco Wlodzimierz Cimoszewicz.
[10] Apesar de os Estados Unidos não serem membros do Conselho da Europa, têm uma grande influência. Moscovo não desejava Jagland, mas queria impedir o polaco Wlodzimierz Cimoszewicz.
[11] ” Communiqué du Comité Nobel norvégien sur le prix de la Paix 2009 “, Réseau Voltaire, 9 octobre 2009.

[*] Analista político, francês, presidente fundador do Réseau Voltaire e da conferência Axis for Peace . Publica todas as semanas crónicas de política estrangeira na imprensa árabe e russa. Última obra publicada: L’effroyable imposture : Tome 2, Manipulations et désinformations .

O original encontra-se aqui.

Tradução de André Rodrigues P. Silva.

Este artigo encontra-se em aqui.

A Falsa Guerra da América no Afeganistão, por F. William Engdahl

Excelente artigo.
Dá que pensar nos estratagemas que podem estar em curso.
Boa leitura.

Bruno Piairo Teixeira

A falsa guerra da América no Afeganistão, por F. William Engdahl [*]

Um dos mais notáveis aspectos na agenda presidencial de Obama é quão pouco foi questionado nos media o motivo porque o Pentágono dos EUA está comprometido na ocupação militar do Afeganistão. Há dois motivos básicos, nenhum dos quais pode ser admitido abertamente em público.

Por trás do enganoso debate oficial sobre quantas tropas são necessárias para “vencer” a guerra no Afeganistão, se mais 30 mil são suficientes ou se pelo menos 200 mil são necessárias, o objectivo real da presença militar estado-unidense naquele país da Ásia Central é obscurecido.

Mesmo durante a campanha presidencial de 2008 o candidato Obama argumentou que era no Afeganistão e não no Iraque que os EUA deviam travar guerra. A sua razão? Porque ele afirmava que era onde a organização Al Qaeda estava escondida e que era a ameaça “real” à segurança nacional dos EUA. Mas as razões por trás do envolvimento estado-unidense no Afeganistão são muito diferentes.

Os militares dos EUA estão no Afeganistão por duas razões. Primeiro para restaurar e controlar o maior abastecedor de ópio do mundo para os mercados da heroína e para utilizar as drogas como uma arma geopolítica contra oponentes, especialmente a Rússia. Aquele controle do mercado da droga afegão é essencial para a liquidez máfia financeira da Wall Street, corrupta e em bancarrota.

Geopolítica do ópio afegão

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De acordo até mesmo com um relatório oficial da ONU, a produção de ópio no Afeganistão ascendeu dramaticamente desde a queda do Taliban em 2001. Os dados da UNODC [United Nations Office on Drugs and Crime] mostram mais cultivo de papoula de ópio em cada um das últimas quatro estações de plantio (2004-2007) do que em qualquer ano durante o domínio Taliban. Agora é utilizada mais terra para o ópio no Afeganistão do que para o cultivo de coca na América Latina. Em 2007, 93% do opiáceos no mercado mundial tinham origem no Afeganistão. Isto não é acidente.

Foi documentado que Washington escolheu a dedo o controverso Hamid Karzai, um senhor da guerra pashtun da tribo Popalzai, há muito ao serviço da CIA, trouxe-o de volta do exílio nos EUA e criou uma mitologia hollywoodiana em torno da “corajosa liderança do seu povo”. Segundo fontes afegãs, Karzai é o “Padrinho” do Ópio no Afeganistão de hoje. Aparentemente não é por acaso que ele foi e hoje ainda é o homem preferido de Washington em Cabul. Mas mesmo com compra maciça de votos, fraudes e intimidações, os dias de Karzai como presidente podem estar a acabar.

A segunda razão para os militares dos EUA permanecerem no Afeganistão muito depois de o mundo ter até esquecido quem é o misterioso Osama bin Laden e a sua alegada organização terrorista Al Qaeda, ou mesmo se eles existem, é como pretexto para os EUA construírem uma força de ataque com uma série de bases permanentes por todo o Afeganistão. O objectivo destas bases não é erradicar quaisquer células da Al Qaeda que possam ter sobrevivido nas cavernas de Tora Bora, ou erradicar um mítico “Taliban” o qual nesta altura, segundo relatos de testemunhas oculares, é constituído esmagadoramente de afegãos locais comuns a combaterem mais uma vez para livrar a sua terra de exércitos de ocupação, como o fizeram na década de 1980 contra os russos.

O objectivo das bases dos EUA no Afeganistão é visar e ser capaz de atacar os dois países que hoje representam a única ameaça combinada no mundo de hoje a um império global americano, à Dominação de Espectro Amplo (Full Spectrum Dominance) como a chama o Pentágono.

O “Mandato do Céu” perdido

O problema para as elites do poder em torno da Wall Street e em Washington é o facto de que agora estão na mais profunda crise financeira da sua história. Esta crise é clara para o mundo todo e o mundo está a actuar em busca da auto-sobrevivência. As elites dos EUA perderam o que na história imperial chinesa é conhecido como o “Mandato do Céu”. Tal mandato é dado ao governante ou à elite dirigente desde que governem o seu povo com justiça e de modo razoável. Quando governam tiranicamente e como déspotas, oprimindo e abusando do seu povo, eles perdem aquele Mandato do Céu.

Se as poderosas elites privadas e ricas que têm controlado o essencial da política financeira e externa dos EUA durante a maior parte do século passado ou mais tinham um “mandato do céu”, elas claramente perderam-no. Os desenvolvimentos internos rumo à criação de um estado policial abusivo com privação de direitos constitucionais dos seus cidadãos, exercício arbitrário do poder por responsáveis não eleitos tais como os secretários do Tesouro Henry Paulson e agora Tim Geithner, a roubarem somas de milhões de milhões de dólares dos contribuintes sem o seu consentimento a fim de salvar da bancarrota os maiores bancos da Wall Street, bancos considerados “Demasiado grandes para falirem”, demonstram ao mundo que eles perderam o mandato.

Nesta situação, as elites do poder estado-unidense estão cada vez mais desesperadas por manter o controle de um império global parasita, chamado enganosamente pela máquina dos seus media, como “globalização”. Para manter o domínio é essencial que eles sejam capazes de romper qualquer cooperação que venha a emergir entre as duas maiores potências da Eurásia no âmbito económico, energético ou militar, a qual poderia apresentar um desafio aos EUA como super-potência única — a China em combinação com a Rússia.

Cada potência euro-asiática traz à mesa contribuições essenciais. A China tem a economia mais robusta do mundo, uma enforme força de trabalho jovem e dinâmica, uma classe média educada. A Rússia, cuja economia não está recuperada do fim destrutivo da era soviética e do saqueio primitivo durante a era Yeltsin, ainda possui activos essenciais para a combinação. A força de ataque nuclear russa e o seu poder militar representam a única ameaça no mundo de hoje à dominação militar dos EUA, ainda que em grande medida sej um resíduo da Guerra Fria. As elites militares russas nunca abandonaram aquele potencial.

A Rússia também possui o maior tesouro do mundo em gás natural e vastas reservas de petróleo de que a China necessita urgentemente. As duas potências estão a convergir cada vez mais através de uma nova organização que criaram em 2001, conhecida como a Organização de Cooperação de (SCO). Esta inclui também os maiores estados da Ásia Central: Casaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão.

O objectivo da alegada guerra estado-unidense contra o Taliban e a Al Qaeda é na realidade colocar a sua força militar de ataque directamente no meio do espaço geográfico desta emergente SCO na Ásia Central. O Irão é um desvio de atenção. O objectivo ou alvo principal é a Rússia e a China.

Oficialmente, é claro, Washington afirma que construiu a sua presença militar no interior do Afeganistão a partir de 2002 a fim de proteger uma “frágil” democracia afegã. É um argumento curioso dada a realidade da presença militar estado-unidense ali.

Mais nove bases

Em Dezembro de 2004, durante uma vista a Cabul, o secretário da Defesa Donald Rumsfeld finalizou planos para construir nove bases no Afeganistão nas províncias de Helmand, Herat, Nimrouz, Balkh, Khost e Paktia. As novas somam-se às três principais bases militares dos EUA já instaladas na sequência da sua ocupação do Afeganistão no Inverno de 2001-2002, ostensivamente para isolar e eliminar a ameaça de terror de Osama bin Laden.

O Pentágono construiu as suas primeiras três bases no Aeródromo de Bagram a Norte de Cabul, o principal centro logístico dos EUA; no Aeródromo de Kandahar, no Sul do Afeganistão; e no Aeródromo de Shindand na província ocidental de Herat. Shindand, a maior base dos EUA no Afeganistão, foi construído a meros 100 quilómetros da fronteira do Irão e a uma distância de ataque à Rússia e também à China.

Historicamente o Afeganistão tem sido a área central para o Grande Jogo russo-britânico, a luta pelo controle da Ásia Central durante os séculos XIX e princípio do XX. A estratégia britânica então era impedir a todo o custo que a Rússia controlasse o Afeganistão e portanto ameaçasse a jóia da coroa imperial britânica, a Índia.

O Afeganistão encarado de modo semelhante pelos planeadores do Pentágono, como altamente estratégico. É uma plataforma a partir da qual o poder militar estado-unidense pode ria ameaçar directamente a Rússia e a China, bem como o Irão e outras terras ricas em petróleo do Médio Oriente. Pouco mudou geopoliticamente ao longo de mais de um século de guerras.

O Afeganistão é uma localização extremamente vital, abarcando a Ásia do Sul, a Ásia Central e o Médio Oriente. O país também está situado ao longo de um proposto traçado de oleoduto dos campos petrolíferos do Mar Cáspio para o Oceano Índico, onde a companhia de petróleo americana Unocal, juntamente com a Enron e a Halliburton de Cheney, tem estado em negociações para obter o direito exclusivo de trazer gás natural do Turquemenistão através do Afeganistão e do Paquistão para a enorme central termoeléctrica a gás natural da Enron em Dabhol, próximo de Mumbai. Karzai, antes de se tornar o presidente fantoche dos EUA, foi um lobbista da Unocal.

A ameaça da Al Qaeda não existe

A venda quanto a toda simulação quanto à finalidade real no Afeganistão torna-se clara com um olhar mais atento à alegada ameaça “Al Qaeda” no Afeganistão. Segundo o escritor Erik Margolis, antes dos ataques do 11 de Setembro de 2001, a inteligência dos EUA estava a dar ajuda e apoio tanto ao Taliban como à Al Qaeda. Margolis afirma que “A CIA estava a planear utilizar a Al Qaeda de Osama bin Laden para incitar uighurs muçulmanos contra a governação chinesa, e os Taliban contra aliados da Rússia na Ásia Central.

Os EUA evidentemente encontraram outros meios de levantar uighurs muçulmanos contra Pequim em Julho último através do seu apoio ao Congresso Mundial Uighur. Mas a “ameaça” Al Qaeda permanece a base da justificação de Obama para a sua escalada guerreira no Afeganistão.

Agora, contudo, o Conselheiro de Segurança Nacional do presidente Obama, o antigo general dos Fuzileiros Navais James Jones, fez uma declaração, a qual foi convenientemente enterrada pelos media amigos dos EUA, acerca da importância estimada do perigo actual da Al Qaeda no Afeganistão. Jones disse ao Congresso que “A presença da al Qaeda está muito diminuída. A estimativa máxima é de menos de 100 operacionais no países, sem bases, sem capacidade para lançar ataques sobre nós ou nossos aliados”.

Isto significa que a Al Qaeda, para todos os propósitos práticos, não existe no Afeganistão. Oh…

Mesmo no vizinho Paquistão, os remanescentes da Al Qaeda mal podem ser encontrados. O Wall Street Journal relata: “Caçados por drones [aviões sem piloto] dos EUA, aflitos por problemas de dinheiro e descobrindo ser mais difícil atrair jovens árabes para as negras montanhas do Paquistão, a al Qaeda está a ver o seu papel reduzir-se ali e no Afeganistão, segundo relatórios de inteligência e responsáveis do Paquistão e dos EUA. Para jovens árabes que são os recrutas primários da al Qaeda, “não é romântico estar no frio, com fome e escondido”, disse um responsável superior dos EUA na Ásia do Sul.

Se levarmos a declaração à sua consequência lógica devemos concluir então que a razão para soldados alemães estarem a morrer juntamente com outros jovens da NATO nas montanhas do Afeganistão nada tem a ver com “vencer uma guerra contra o terrorismo”. Convenientemente a maior parte dos media prefere esquecer o facto de que a Al Qaeda, na medida em que alguma vez existiu, foi uma criação da CIA na década de 1980, a qual recrutou e treinou radicais muçulmanos como parte de uma estratégia desenvolvida pelo chefe da CIA de Reagan, Bill Casey, e outros a fim de criar “um novo Vietname” para a União Soviética a qual levaria a uma humilhante derrota do Exército Vermelho [NR 1] e ao colapso final da União Soviética.

Agora o general Jones do Conselho de Segurança Nacional dos EUA admite que no essencial não há mais qualquer Al Qaeda no Afeganistão. Talvez seja tempo para um debate mais honesto dos nossos líderes políticos acerca do verdadeiro propósito de enviar mais jovens para a morte a fim de proteger as colheitas de ópio do Afeganistão.

21/Outubro/2009

[NR 1] A afirmação do autor não corresponde aos factos: o Exército Vermelho não foi derrotado no Afeganistão. Retirou-se do país porque assim lhe foi ordenado pelo governo de Moscovo, então presidido pelo sr. Gorbarchev.

[*] Autor de Full Spectrum Dominance: Totalitarian Democracy in the New World Order. Pode ser contactado através do seu sítio www.engdahl.oilgeopolitics.net.

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© Copyright F. William Engdahl, Global Research, 2009

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Poder, Ilusão e o Último Tabu da América, por John Pilger

Sempre em grande este John Pilger.

Bruno Piairo Teixeira

Poder, Ilusão e o Último Tabu da América, por John Pilger

Discurso proferido na conferência “Socialismo 2009” em São Francisco.

Há dois anos, na “Socialismo”, em Chicago, eu falei sobre um «governo invisível», um termo usado por Edward Bernays, um dos fundadores da propaganda moderna. Foi Bernays quem, em 1920, inventou “relações públicas” como um eufemismo para a propaganda. Utilizando as ideias do seu tio, Sigmund Freud, Bernays fez campanha a favor da indústria do tabaco para que as mulheres americanas encarassem o fumar como um acto de libertação feminista; chamou aos cigarros «tochas da liberdade».

O governo invisível que Bernays tinha em mente reunia o poder de todos os meios de comunicação – relações públicas, imprensa, radiodifusão, publicidade. Era o poder da forma: da marca e da formação da imagem sobre a substância e a verdade – e eu gostaria de falar hoje sobre a mais recente conquista deste governo invisível: a ascensão de Barack Obama e o silenciamento da esquerda.

Primeiro, gostaria de recuar cerca de 40 anos para um dia abafado no Vietname.

Eu era um jovem correspondente de guerra que tinha acabado de chegar a uma aldeia chamada Tuylon. A minha missão era escrever sobre uma companhia de fuzileiros estado-unidenses que tinha sido enviada para esta vila para conquistar corações e mentes.

«As minhas ordens», disse o sargento fuzileiro, «são vender o Caminho Americano de Liberdade como indicado no Manual de Pacificação. Isto é projectado para ganhar os corações e as mentes das pessoas como indicado na página 86». A página 86 intitulava-se “WHAM: Winning Hearts and Minds” [“CCEM: Conquistar Corações e Mentes”]. A unidade de fuzileiros era uma Companhia de Acção Conjunta, o que, explicou o sargento, «significa que atacamos estas pessoas às segundas-feiras e ganhamos os seus corações e mentes às terças-feiras». Ele estava a brincar, embora não completamente.

O sargento, que não falava vietnamita, tinha chegado à vila, levantou-se num jipe e disse através de um megafone: «Saiam todos, temos arroz e doces e escovas de dentes para vos dar!…»

Houve silêncio.

«Agora oiçam, ou vocês gooks vêm cá para fora, ou nós vamos aí e apanhámo-los!»

O povo de Tuylon finalmente saiu, e fez fila para receber pacotes de arroz, barras de chocolate, balões de festa e vários milhares de escovas de dente. Três sanitários amarelos portáteis, operados a bateria, foram retidos para a chegada do coronel.

E quando o coronel chegou naquela noite, o chefe do distrito foi convocado, e sanitários amarelos foram revelados. O coronel pigarreou e produziu um discurso escrito à mão.

«Sr. chefe do distrito e todas as pessoas simpáticas», disse ele, «o que estes presentes representam é mais do que a soma das suas partes. Eles carregam o espírito da América. Senhoras e Senhores, não há lugar na terra como a América. É a terra onde os milagres acontecem. É um farol para mim e para vocês. Vejam, na América consideramo-nos como verdadeiramente afortunados tendo a maior democracia que o mundo já conheceu, e queremos que vocês, pessoas simpáticas, partilhem da nossa boa sorte».

Thomas Jefferson, George Washington, mesmo a «cidade sobre uma colina» de John Winthrop obtiveram uma menção. Tudo o que faltava era o Star Spangled Banner [hino americano] tocando no fundo.

É claro que os aldeões não faziam ideia daquilo que o coronel estava a falar. Quando os fuzileiros batiam palmas, eles batiam palmas. Quando o coronel acenava, as crianças acenavam. Quando partia, o coronel apertou a mão do sargento e disse: «Você tem muitos corações e mentes aqui. Continue, sargento!»

«Sim, senhor.»

No Vietname, testemunhei muitos espectáculos como esse. Eu tinha crescido na distante Austrália com base numa dieta cinematográfica constante de John Wayne, Randolph Scott, Walt Disney, os Três Estarolas e Ronald Reagan. O Caminho Americano da Liberdade que eles retratavam bem poderia ter sido retirado do manual WHAM.

Aprendi que os Estados Unidos tinham vencido a Segunda Guerra Mundial sozinhos e agora lideravam o “mundo livre” como a sociedade “escolhida”. Foi só muito mais tarde, quando li Opinião Pública de Walter Lippmann, que entendi alguma coisa do poder das emoções ligadas a ideias falsas e má história.

Os historiadores chamam a isto “excepcionalismo” – a noção de que os Estados Unidos têm um direito divino de levar o que chamam de liberdade ao resto da humanidade. Evidentemente, este é um refrão muito velho; os franceses e os britânicos criaram e celebraram a sua própria “missão civilizadora” enquanto impunham regimes coloniais que negavam as liberdades civis básicas.

No entanto, o poder da mensagem americana é diferente. Enquanto os europeus eram imperialistas orgulhosos, os americanos são treinados para negar o seu imperialismo. Enquanto o México era conquistado e os fuzileiros navais enviados para dominar a Nicarágua, os manuais americanos referiam-se a uma “idade da inocência”. As motivações americanas eram bem-intencionadas, morais, excepcionais, como disse o coronel. Não havia ideologia, diziam; e essa ainda é a sabedoria recebida. Na verdade, o americanismo é uma ideologia que é única porque o seu elemento principal é a sua negação de que é uma ideologia. É tanto conservadora como liberal, tanto de direita como de esquerda. Tudo o resto é heresia.

Barack Obama é a personificação deste “ismo”. Desde que Obama foi eleito, importantes liberais têm falado sobre o retorno da América ao seu verdadeiro status como uma «nação de ideais morais» – nas palavras de Paul Krugman no New York Times. No San Francisco Chronicle, o colunista Mark Morford escreveu que «as pessoas espiritualmente avançadas encaram o novo presidente como um “farol”… que pode ajudar a anunciar uma nova forma de estar no planeta».

Digam isso a uma criança afegã cuja família tenha sido destruída pelas bombas de Obama, ou uma criança paquistanesa cuja família esteja entre os 700 civis mortos pelos aviões não-tripulados de Obama. Ou digam isso a uma criança na carnificina de Gaza causada pelas armas inteligentes americanas que, revelou Seymour Hersh, foram de novo fornecidas a Israel para uso no massacre «somente depois de a equipa de Obama ter feito saber que não objectaria». O homem que ficou silencioso sobre Gaza é o homem que agora condena o Irão.

Obama é o mito que é o último tabu da América. O seu tema mais consistente nunca foi a mudança; foi o poder. Os Estados Unidos, disse ele, «lideram o mundo na batalha contra os males imediatos e na promoção do bem final […] Temos de liderar através da construção de um exército do século XXI para garantir a segurança do nosso povo e promover a segurança de todos os povos». E existe esta notável declaração: «Em momentos de grande perigo no século passado, os nossos líderes asseguraram que a América, pelos feitos e pelo exemplo, liderou e elevou o mundo, que nos mantivemos firmes e lutámos pela liberdade procurada por milhares de milhões de pessoas além das suas fronteiras». Nos Arquivos Nacionais, em 21 de Maio, afirmou: «Da Europa ao Pacífico, temos sido a nação que fechou as câmaras de tortura e substituiu a tirania pelo domínio da lei».

Desde 1945, «pelos feitos e pelo exemplo», os Estados Unidos derrubaram cinquenta governos, incluindo democracias, esmagaram cerca de 30 movimentos de libertação, apoiaram tiranias e criaram câmaras de tortura do Egipto à Guatemala. Incontáveis homens, mulheres e crianças foram bombardeados até à morte. Bombardear é canja. E, no entanto, aqui está o 44º Presidente dos Estados Unidos, tendo enchido o seu governo com belicistas, protagonistas de fraudes corporativas e poluidores das eras Clinton e Bush, provocando-nos enquanto prometem mais do mesmo.

Aqui está a Casa dos Representantes, controlada pelos democratas de Obama, votando para aprovar 16 mil milhões para três guerras e um futuro orçamento militar presidencial que, em 2009, excederá qualquer ano desde o fim da Segunda Guerra Mundial, incluindo os picos de gastos das guerras coreana e do Vietname. E aqui está um movimento pela paz, não todo mas boa parte dele, disposto a olhar para o outro lado e a acreditar ou a esperar que Obama irá restaurar, como Paul Krugman escreveu no New York Times, a «nação de ideais morais».

Não há muito tempo, visitei o Museu Americano de História no famoso Instituto Smithsonian em Washington. Uma das exposições mais populares chamava-se “O preço da Liberdade: os americanos na guerra”. Era tempo de férias e as filas de pessoas felizes, incluindo muitas crianças, misturavam-se através de uma gruta da guerra e da conquista estilo Pai Natal, onde mensagens sobre a “grande missão” da sua nação estavam iluminadas. Estas incluíam tributos à citação «americanos excepcionais [que] salvaram um milhão de vidas» no Vietname, onde estavam – citação – «determinados a travar a expansão comunista». No Iraque, outros bravos americanos – citação – «empregaram ataques aéreos de precisão sem precedentes».

O que foi chocante não foi tanto o revisionismo de dois dos crimes épicos dos tempos modernos, mas a simples e rotineira escala da omissão.

Como todos os presidentes dos EUA, Bush e Obama têm muito em comum. As guerras de ambos os presidentes, e as guerras de Clinton e de Reagan, de Carter e de Ford, de Nixon e de Kennedy, são justificadas pelo mito duradoiro da América excepcional – um mito que o falecido Harold Pinter descreveu como «um brilhante, espirituoso, altamente bem-sucedido acto de hipnose».

O jovem inteligente que recentemente chegou à Casa Branca é um hipnotizador muito fino, em parte porque é tão extraordinário ver um afro-americano no pináculo do poder na terra da escravatura. Contudo, este é o século XXI, e raça – juntamente com sexo e mesmo classe – podem ser instrumentos muito sedutores de propaganda. Para o que importa, acima de raça e género, está a classe que se serve.

O círculo íntimo de George W. Bush – do Departamento de Estado ao Supremo Tribunal – foi talvez o mais multirracial na história presidencial. Era politicamente correcto por excelência. Pensem em Condoleezza Rice e em Colin Powell. Foi também o mais reaccionário.

Para muitos, a própria presença de Obama na Casa Branca reafirma a nação moral. Ele é um sonho de marketing. Como a Calvin Klein ou a Benetton, ele é uma marca que promete algo especial – algo excitante, quase picante, como se ele fosse um radical, como se ele pudesse estabelecer a mudança. Ele faz as pessoas sentirem-se bem. Ele é um homem pós-moderno sem bagagem política.

No seu livro, A minha herança, Obama refere-se ao trabalho que teve depois de se ter graduado na Universidade de Columbia em 1983. Ele descreve o seu empregador como «uma casa de consultoria para empresas multinacionais». Por alguma razão, ele não diz quem foi o seu empregador ou o que fez lá. O empregador foi a Business International Corporation, que tem uma longa história de fornecimento de cobertura para a CIA, com acção encoberta, e de infiltração dos sindicatos e da esquerda. Eu sei disso porque ela foi especialmente activa no meu próprio país, a Austrália.

Obama não diz o que fez na Business International; e pode não haver nada de sinistro, mas parece digno de investigação, e de debate, certamente, como uma pista para quem o homem é.

Durante o seu breve período no Senado, Obama votou para continuar as guerras no Iraque e no Afeganistão. Votou a favor da Lei Patriota. Recusou-se a apoiar um projecto de lei a favor dos cuidados de saúde financiados por um único organismo público. Apoiou a pena de morte. Como candidato presidencial, recebeu mais apoio empresarial do que John McCain. Prometeu fechar Guantánamo como uma prioridade e não o fez. Em vez disso, isentou os autores de tortura, restabeleceu as infames comissões militares, manteve intacto o gulag de Bush e opôs-se ao habeas corpus.

Daniel Ellsberg estava certo quando disse que, com Bush, um golpe militar tinha tido lugar nos Estados Unidos, dando ao Pentágono poderes sem precedentes. Esses poderes foram reforçados pela presença de Robert Gates, um amigo íntimo da família Bush e secretário da Defesa de George W. Bush, e por todos os funcionários e generais do Pentágono de Bush que mantiveram os seus lugares sob Obama.

Na Colômbia, Obama está a planear gastar 46 milhões dólares numa nova base militar que apoiará um regime suportado por esquadrões da morte e prosseguir a trágica história de intervenção de Washington na América Latina.

Num pseudo-evento encenado em Praga, Obama prometeu um mundo sem armas nucleares a uma audiência global na sua maioria sem consciência de que a América está a construir novas armas nucleares tácticas destinadas a eliminar a distinção entre guerra nuclear e convencional. Como George Bush, ele usou o absurdo da Europa ameaçada pelo Irão para justificar a construção de um sistema de mísseis que visa a Rússia e a China.

Num pseudo-evento na Academia Naval de Annapolis, adornado com bandeiras e uniformes, Obama mentiu dizendo que as tropas estavam a voltar a casa. O chefe do exército, general George Casey, diz que a América estará no Iraque por até uma década; outros generais dizem quinze anos. As unidades serão renomeadas como formadores; mercenários irão tomar o seu lugar. Foi assim que a guerra do Vietname durou após a “retirada” americana.

Chris Hedges, autor de Empire of Illusion, explica-o bem. «O presidente Obama», escreveu ele, «faz uma coisa e a marca Obama fá-lo acreditar noutra. Esta é a essência da publicidade bem sucedida. Você compra ou faz aquilo que o anunciante quer por causa de como ele o faz sentir». E assim você é mantido num «perpétuo estado de infantilidade». Ele chama a isso de «política suja».

A tragédia é que a marca Obama parece ter estropiado ou absorvido o movimento anti-guerra, o movimento pela paz. De 256 democratas no Congresso, trinta estão dispostos a assumir uma posição contra o partido da guerra de Obama e Nancy Pelosi. Em 16 de Junho, eles votaram a favor de 106 mil milhões de dólares para mais guerra.

Em Washington, o grupo Fora do Iraque das primárias está fora de acção. Os seus membros nem sequer podem chegar a uma forma de expressão da razão pela qual estão silenciosos. Em 21 de Março, uma manifestação no Pentágono pelo outrora poderoso Unidos pela Paz e pela Justiça arrastou apenas alguns milhares. O presidente cessante da UPJ, Leslie Cagan, diz que as suas pessoas não estão a aparecer porque «é suficiente para muitos deles que Obama tenha um plano para acabar com a guerra e que as coisas estejam a mover-se no sentido certo». E onde está o poderoso MoveOn nestes dias? Onde está a sua campanha contra as guerras no Iraque e no Afeganistão? E o que foi dito exactamente quando, em Fevereiro, o director executivo do MoveOn, Jason Ruben, se encontrou com o presidente Obama?

Sim, um monte de gente boa mobilizou-se por Obama. Mas o que exigiram dele – para além da amorfa “mudança”? Isso não é activismo.

O activismo não desiste. O activismo não é sobre política de identidade. O activismo não espera que lhe digam. O activismo não depende do ópio da esperança. Woody Allen disse certa vez: «Senti-me muito melhor quando desisti da esperança». O verdadeiro activismo tem pouco tempo para a política de identidade, uma distracção que confunde e sorve boas pessoas em toda a parte.

Eu escrevo para o jornal italiano Il Manifesto, ou melhor, costumava escrever para ele. Em Fevereiro, enviei ao editor internacional um artigo que levantou questões sobre Obama como uma força progressista. O artigo foi rejeitado. Porquê? Perguntei. «De momento», escreveu o editor, «preferimos manter uma abordagem mais “positiva” à novidade apresentada por Obama… pegaremos em questões específicas […] mas não gostaríamos de dizer que ele não fará nenhuma diferença».

Por outras palavras, um presidente norte-americano projectado para promover o sistema mais rapace na história é subscrito e despolitizado pela esquerda. O que é notável neste estado de coisas é que a chamada esquerda radical nunca esteve mais prevenida, mais consciente, das iniquidades do poder. O Movimento Verde, por exemplo, aumentou a consciência de milhões de pessoas, de modo que quase toda criança sabe algo sobre o aquecimento global; e contudo há uma resistência dentro do movimento verde para com a noção de poder como um projecto militar. Observações similares podem ser feitas dos movimentos gay e feminista; como em relação ao movimento operário, ainda respira?

Uma das minhas citações favoritas é de Milan Kundera: «A luta das pessoas contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento». Nunca devemos esquecer que o objectivo primário do grande poder é distrair e limitar o nosso desejo natural de justiça social, igualdade e verdadeira democracia. Há muito tempo, o governo invisível de propaganda de Bernays elevou o grande negócio, do seu status impopular como uma espécie de máfia ao de uma força motriz patriota. O Modo de Vida Americano começou como um slogan publicitário. A imagem moderna do Pai Natal foi uma invenção da Coca-Cola.

Hoje, somos confrontados com uma oportunidade extraordinária, graças ao crash de Wall Street e à revelação, para as pessoas comuns, de que o mercado livre nada tem a ver com a liberdade. A oportunidade é o reconhecimento de uma agitação na América que não é familiar a muitos na esquerda, mas que está relacionada com um grande movimento popular em crescimento em todo o mundo.

Na América Latina, há menos de 20 anos, havia o desespero do costume, as divisões usuais de pobreza e de liberdade, os bandidos usuais em uniformes governando regimes indizíveis. Existe agora um movimento popular baseado na revitalização das culturas e línguas indígenas, e uma história de luta popular e revolucionária menos afectada pelas distorções ideológicas do que em qualquer outro lugar.

As recentes conquistas incríveis na Bolívia, no Equador, na Venezuela, em El Salvador, na Argentina, no Brasil e no Paraguai representam um esforço para os direitos políticos e da comunidade que é verdadeiramente histórico, com implicações para todos nós. Estes sucessos são expressos perversamente no derrube do governo das Honduras, pois, quanto mais pequeno o país, maior a ameaça de que o contágio da emancipação se siga.

Em todo o mundo, movimentos sociais e organizações de base surgiram para combater o dogma do livre mercado. Eles ensinaram aos governos do sul que os alimentos para exportação são um problema ao invés de uma solução para a pobreza global. Eles politizaram as pessoas comuns para defenderem os seus direitos, como nas Filipinas e na África do Sul. Uma autêntica globalização está a crescer como nunca, e isso é excitante.

Considerem a notável campanha de boicote, desinvestimento e sanções – abreviadamente, BDS – visando Israel, que está a varrer o mundo. Navios israelenses foram mandados embora da África do Sul e da Austrália ocidental. Uma empresa francesa foi obrigada a abandonar planos para construir uma ferrovia ligando Jerusalém com colonatos israelenses ilegais. Os organismos desportivos israelenses encontram-se isolados. As universidades começaram a cortar os laços com Israel, e os alunos estão activos pela primeira vez nesta geração. Graças a eles, o momento sul-africano de Israel aproxima-se, pois foi em parte deste modo que o apartheid foi derrotado.

Na década de 1950, nunca esperámos que o vento forte da década de 1960 soprasse. Sintam a brisa hoje. Nos últimos oito meses, milhões de emails irados, enviados por americanos comuns, inundaram Washington. Isso não aconteceu antes. As pessoas estão indignadas enquanto as suas vidas são atacadas; elas não têm qualquer semelhança com a enorme massa apresentada pela mídia.

Olhem para as sondagens que raramente são relatadas. Mais de dois terços dos americanos dizem que o governo devia cuidar daqueles que não podem cuidar de si próprios; 64 por cento pagariam mais impostos para garantir cuidados de saúde para todos; 59 por cento são favoráveis aos sindicatos; 70 por cento querem o desarmamento nuclear; 72 por cento querem os EUA completamente fora do Iraque; e assim por diante.

Durante demasiado tempo, os americanos comuns foram encaixados em estereótipos que são desdenhosos. É por isso que as atitudes progressistas das pessoas comuns raramente são relatadas nos meios de comunicação. Elas não são ignorantes. Elas são subversivas. Elas estão informadas. E são “anti-americanas”.

Uma vez pedi a uma amiga, a grande correspondente de guerra e humanitária americana, Martha Gellhorn, para me explicar “anti-americano”. «Eu digo-te o que é “anti-americano”», disse ela. «É o que os governos e os seus interessados empossados chamam àqueles que honram a América opondo-se à guerra e ao roubo de recursos e acreditando em toda a humanidade. Existem milhões destes anti-americanos nos Estados Unidos. São pessoas comuns que não pertencem a nenhuma elite e que julgam o seu governo em termos morais, embora elas chamassem a isso decência comum. Elas não são vãs. Eles são as pessoas com uma consciência desperta, as melhores dentre os cidadãos dos Estados Unidos. Pode-se contar com elas. Estiveram no sul, com o movimento dos Direitos Civis, acabando com a escravatura. Estiveram nas ruas, exigindo o fim das guerras na Ásia. Claro, elas desaparecem da vista de vez em quando, mas elas são como sementes debaixo da neve. Eu diria que elas são verdadeiramente excepcionais.»

Um certo populismo, que tem um orgulhoso, embora esquecido passado, está mais uma vez a crescer na América. No século XIX, um autêntico americanismo de base foi expresso em realizações populistas: o sufrágio feminino, a campanha para uma jornada de oito horas, taxas de imposto progressivas, propriedade pública de ferrovias e comunicações, e a quebra do poder dos lobistas corporativos.

Os populistas americanos estavam longe de ser perfeitos; por vezes, andavam em más companhias, mas falaram de baixo para cima, não de cima para baixo. Foram traídos por líderes que os instaram a estabelecer um compromisso e a fundir-se com o Partido Democrata. Será que isso soa familiar?

O que Obama, os banqueiros, os generais, o FMI, a CIA e a CNN temem é que as pessoas comuns se unam e ajam em conjunto. É um medo tão antigo como a democracia: um medo de que de repente as pessoas transformem a sua raiva em acção e sejam guiadas pela verdade. «Num tempo de engano universal», escreveu George Orwell, «dizer a verdade é um acto revolucionário».

Fonte: John Pilger

Malalai Joya: “Obama Devia Pedir Desculpa ao Povo Afegão”

Dá que pensar mais uma vez nos conceitos que temos dentro das nossas cabeças acerca do Afeganistão bem como das “guerras contra o terrorismo“. Boas leituras.

Bruno Piairo Teixeira

Malalai Joya: «Obama Devia Pedir Desculpa ao Povo Afegão»
Esquerda (17 de Outubro de 2009)

Malalai Joya, a activista de luta pela democracia e direitos das mulheres no Afeganistão, esteve em Portugal a convite do Bloco de Esquerda.

Malalai Joya

Malalai Joya é das poucas vozes que o mundo conhece da intransigência da oposição aos talibãs e aos senhores da guerra e da droga que hoje ocupam os lugares de topo no poder político, protegidos pelas tropas de ocupação. Eleita deputada no parlamento afegão, foi expulsa desse órgão por dizer que «isto não é um parlamento, é um jardim zoológico» e que «a bancada da maioria é composta por criminosos e corruptos». «Confrontei-os com os seus crimes e por isso me expulsaram, fui insultada e ameaçada, inclusive de violação, e exigiram que pedisse desculpa para poder voltar» a ocupar o lugar para que tinha sido eleita. «Não ia pedir desculpa por dizer a verdade», afirmou Malalai Joya às dezenas de pessoas que compareceram ao encontro lisboeta com a activista, na livraria Ler Devagar.

«Venho de uma terra de tragédia. Substituíram os talibãs por uma clique que chega ao poder com as mãos ensaguentadas e que fala de direitos humanos sem acreditar em nada disso», começou por explicar a activista. «Por isso somos hoje o centro da produção de droga e um santuário para os terroristas», disse Malalai Joya.

«É muito difícil combater dois inimigos ao mesmo tempo. Por isso é tão importante a solidariedade internacional», referiu por várias vezes a activista afegã, identificando os talibãs, «com a sua mentalidade medieval» e as tropas estrangeiras, que «ao estilo do colonizador britânico usa a táctica de dividir para reinar», tendo criado a força dos talibãs contra os soviéticos e dos narco-senhores da guerra contra os talibãs.

Questionada sobre a entrega do Nobel da Paz a Obama, Malalai classificou-o como «um insulto à paz» e lançou a pergunta: «O que é que ele fez pela paz nestes 9 meses? Está a ser o presidente da guerra. Olhem para o que se passa no Afeganistão, no Iraque, até no Paquistão onde os aviões não tripulados continuam os bombardeamentos».

«Obama devia pedir desculpa ao meu povo por esta “guerra ao terror” que não é mais que uma guerra aos inocentes», criticou a activista que também lembrou o investimento norte-americano na prisão de Bagram – «a nova Guantánamo» – e que «a democracia nunca foi feita com a guerra». Malalai não poupou críticas aos media ocidentais: «Eles dizem que se os ocupantes saírem vem aí a guerra civil. Mas nós já temos uma guerra civil hoje». Malalai acredita que o povo afegão «odeia os talibãs e os narcotraficantes». «Mas os ocupantes querem agora trazer de volta o Mullah Omar para o governo, dizendo que ele é um talibã moderado. Isto é só para enganar a opinião pública internacional», denunciou a activista que o Bloco de Esquerda e o seu grupo parlamentar em Estrasburgo – o GUE/NGL – querem ver vencer o Prémio Sakharov, que distingue os lutadores pelos direitos humanos no mundo.

O eurodeputado independente eleito pelo Bloco foi o anfitrião deste encontro. Rui Tavares explicou as razões da proposta da candidatura de Malalai Joya ao Prémio Sakharov. «Há 30 anos que ouvimos falar muito do Afeganistão, mas quase nunca ouvimos falar uma voz do Afeganistão», referiu Tavares para concluir que isso leva a uma cultura de impunidade que resulta na «vergonha» de que «a guerra seja sempre a primeira opção quando se trata do Afeganistão».

Quanto aos resultados das recentes presidenciais, contestados pelos observadores internacionais, Malalai Joya não tem dúvidas da falta de legitimidade dos resultados anunciados. «As urnas ficaram todas nas mãos da máfia e dizia-se que o importante não é quem vota, mas quem conta os votos. O fantoche sem vergonha que é Hamid Karzai foi o escolhido para ganhar e assim continuar no poder», acusou a ex-deputada, sem grande apreço pelo principal opositor, que «teve o apoio dos narcotraficantes e senhores da guerra».

«A educação é fundamental para a emancipação, e é isso que falta no Afeganistão», sublinhou por várias vezes na sua intervenção, criticando igualmente o agravamento das situações de pobreza, apesar dos 36 mil milhões que o país recebeu nos últimos oito anos.

A situação das mulheres no Afeganistão também foi destacada nas intervenções desta activista que por várias vezes referiu a misoginia da classe política. Malalai Joya recordou que o parlamento afegão tem 25% de mulheres, que na sua maioria estão alinhadas com o sector fundamentalista contrário aos direitos das mulheres. E deu muitos exemplos de ataques que demonstram que se estão a tornar mais comuns os crimes como violações ou a violência doméstica, bem como a discriminação nos tribunais e leis feitas à medida para impedir as mulheres de trabalhar ou sair à rua sem autorização do marido. «Leis que Karzai assinou para ter umas eleições tranquilas», disse Malalai, que no Afeganistão só sai à rua de burca e com guarda-costas, «e nem assim estou segura. Assim, como é que podemos falar de democracia?», questionou.

Fonte: Esquerda

Guerra é Paz, Ignorância é Força, por John Pilger

Guerra é Paz, Ignorância é Força, por John Pilger [*]

Barack Obama, o vencedor do Prémio Nobel da Paz 2009, está a planear uma outra guerra para acrescentar ao seu recorde impressionante. No Afeganistão, os seus agentes aniquilam habitualmente festas de casamento, agricultores e trabalhadores da construção com armas tais como os inovadores mísseis Hellfire, os quais sugam o ar para fora dos seus pulmões. De acordo com a ONU, 338 mil crianças afegãs estão a morrer sob a aliança liderada por Obama, a qual permite apenas gastos anuais de apenas US$29 per capital em cuidados médicos.

Semanas após a sua posse, Obama iniciou uma nova guerra no Paquistão, levando a que mais de um milhão de pessoas fugissem das suas casas. Ao ameaçar o Irão – o qual a sua secretária de Estado, Hillary Clinton, disse estar preparada para “destruir” – Obama mentiu ao dizer que os iranianos estavam a encobrir uma “instalação nuclear secreta”, sabendo que ela já fora relatada à Agência Internacional de Energia Atómica. Em conivência com a única potência com arma nuclear do Médio Oriente, ele subornou a Autoridade Palestina a fim de suprimir o julgamento da ONU de que Israel cometera crimes contra a humanidade no seu assalto a Gaza – crimes tornados possíveis com armas estado-unidenses cuja expedição Obama aprovou secretamente antes da sua tomada de posse.

Em casa, o homem da paz aprovou um orçamento militar que excede o de qualquer outro ano desde o fim da Segunda Guerra Mundial enquanto preside a uma nova espécie de repressão interna. Durante a recente reunião do G20 em Pittsburgh, hospedada por Obama, a polícia militarizada atacou manifestantes pacíficos com algo chamado Long-Range Acoustic Device, nunca visto antes nas ruas dos EUA. Montado na torre de um pequeno tanque, ele emite um ruído penetrante enquanto gás lacrimogéneo e gás de pimenta eram disparados indiscriminadamente. Faz parte de um novo arsenal de “munições para controle de multidão” fornecido por empreiteiros tais como a Raytheon. No Pentágono de Obama, controlado pelo “estado de segurança nacional”, o campo de concentração da Baía de Guantánamo, o qual ele prometeu encerrar, permanece aberto e as “rendições”, assassinatos secretos e tortura continuam.

A guerra mais recente do vencedor do Prémio Nobel da Paz é em grande medida secreta. No dia 15 de Julho Washington finalizou um acordo com a Colômbia que dá aos EUA sete bases militares gigantes. “A ideia”, relatou a Associted Press, “é fazer da Colômbia um centro (hub) regional para operações do Pentágono… aproximadamente metade do continente pode ser coberta por um C-17 [transporte militar] sem reabastecimento”, o que “ajuda a executar a estratégia de compromisso regional”.

Traduzido, isto significa que Obama está a planear uma “reversão” da independência e democracia que os povos da Bolívia, Venezuela, Equador e Paraguai alcançaram enfrentando grandes dificuldades, bem como com uma histórica cooperação regional que rejeitava a noção de uma “esfera de influência” dos EUA. O regime colombiano, o qual apoia esquadrões da morte e tem o pior registo de direitos humanos do continente, recebeu apoio militar dos EUA numa escala que vem logo atrás de Israel. A Grã-Bretanha fornece treino militar. Guiados por satélite militares dos EUA, paramilitares colombianos infiltram-se agora na Venezuela com o objectivo de derrubar o governo democrático de Hugo Chávez, o que George W. Bush não conseguiu fazer em 2002.

A guerra de Obama à paz e à democracia na América Latina segue um estilo que ele já demonstrou no golpe contra o presidente democrático das Honduras, Manuel Zelaya, em Junho. Zelaya havia aumentado o salário mínimo, concedido subsídios a pequenos agricultores, reduzido taxas de juros e diminuído a pobreza. Ele planeava romper um monopólio farmacêutico estado-unidense e fabricar medicamentos genéricos baratos. Embora Obama tenha apelado à restituição do poder a Zelaya, ele recusa-se a condenar os executores do golpe e a chamar o embaixador dos EUA ou as tropas estado-unidenses que treinam as forças hondurenhas determinadas a esmagar uma resistência popular. A Zelaya foi reiteradamente recusada uma reunião com Obama, o qual aprovou um empréstimo do FMI de US$164 milhões para o regime ilegal. A mensagem é clara e familiar: bandidos podem actuar com impunidade em prol dos EUA.

Obama, o suave operador de Chicago via Harvard, foi alistado a fim de restaurar o que chama de “liderança” por todo o mundo. A decisão do comité do Prémio Nobel é a espécie de enjoativo racismo inversos que beatificou o homem por nenhuma outra razão senão a de que é membro de uma minoria e atraente para sensibilidade liberais, se não para as crianças afegãs que ele mata. Isto é o Apelo de Obama. Não é diferente de um apito de cão: inaudível para a maioria, irresistível para os loucos e os estúpidos. “Quando Obama entra numa sala”, emocionou-se George Clooney, “você quer segui-lo para algum lugar, seja onde for”.

O grande porta-voz da libertação negra, Frantz Fanon , entendeu isto. Em Os condenados da terra descreveu o “intermediário [cuja] nada tem a ver com transformar a nação: consiste, prosaicamente, em ser a linha de transmissão entre a nação e o capitalismo, desenfreado embora camuflado”. Porque o debate político tornou-se tão degradado na nossa monocultura dos media – Blair ou Brown, Brown ou Cameron – raça, género e classe podem ser utilizados como ferramentas de propagada sedutora e diversão. No caso de Obama, o que importa, como Fanon destacou numa outra era, não é a elevação “histórica” do intermediário, mas a classe a que ele serve. Afinal de contas, o círculo próximo de Bush era provavelmente o mais multi-racial da história presidencial. Havia Condoleezza Rice, Colin Powell, Clarence Thomas, todos a servirem devidamente um poder extremista e perigoso.

A Grã-Bretanha teve o seu próprio misticismo semelhante ao de Obama. No dia seguinte à eleição de Blair em 1997, o Observer previu que ele criaria “novas regras à escala mundial sobre direitos humanos”, ao passo que o Guardian se rejubilou com o “ritmo ofegante com que as comportas da mudança arrebentam”. Quando Obama foi eleito em Novembro último, o deputado Denis MacShane, um devoto dos banhos de sangue de Blair, involuntariamente nos advertiu: “Eu fecho os meus olhos quando ouço este rapaz e podia ser o Tony. Ele está a fazer a mesma coisa que fizemos em 1997″.

15 de Outubro de 2009

O original encontra-se em aqui.

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