Sempre em grande este John Pilger.
Bruno Piairo Teixeira
Poder, Ilusão e o Último Tabu da América, por John Pilger
Discurso proferido na conferência “Socialismo 2009” em São Francisco.
Há dois anos, na “Socialismo”, em Chicago, eu falei sobre um «governo invisível», um termo usado por Edward Bernays, um dos fundadores da propaganda moderna. Foi Bernays quem, em 1920, inventou “relações públicas” como um eufemismo para a propaganda. Utilizando as ideias do seu tio, Sigmund Freud, Bernays fez campanha a favor da indústria do tabaco para que as mulheres americanas encarassem o fumar como um acto de libertação feminista; chamou aos cigarros «tochas da liberdade».
O governo invisível que Bernays tinha em mente reunia o poder de todos os meios de comunicação – relações públicas, imprensa, radiodifusão, publicidade. Era o poder da forma: da marca e da formação da imagem sobre a substância e a verdade – e eu gostaria de falar hoje sobre a mais recente conquista deste governo invisível: a ascensão de Barack Obama e o silenciamento da esquerda.
Primeiro, gostaria de recuar cerca de 40 anos para um dia abafado no Vietname.
Eu era um jovem correspondente de guerra que tinha acabado de chegar a uma aldeia chamada Tuylon. A minha missão era escrever sobre uma companhia de fuzileiros estado-unidenses que tinha sido enviada para esta vila para conquistar corações e mentes.
«As minhas ordens», disse o sargento fuzileiro, «são vender o Caminho Americano de Liberdade como indicado no Manual de Pacificação. Isto é projectado para ganhar os corações e as mentes das pessoas como indicado na página 86». A página 86 intitulava-se “WHAM: Winning Hearts and Minds” [“CCEM: Conquistar Corações e Mentes”]. A unidade de fuzileiros era uma Companhia de Acção Conjunta, o que, explicou o sargento, «significa que atacamos estas pessoas às segundas-feiras e ganhamos os seus corações e mentes às terças-feiras». Ele estava a brincar, embora não completamente.
O sargento, que não falava vietnamita, tinha chegado à vila, levantou-se num jipe e disse através de um megafone: «Saiam todos, temos arroz e doces e escovas de dentes para vos dar!…»
Houve silêncio.
«Agora oiçam, ou vocês gooks vêm cá para fora, ou nós vamos aí e apanhámo-los!»
O povo de Tuylon finalmente saiu, e fez fila para receber pacotes de arroz, barras de chocolate, balões de festa e vários milhares de escovas de dente. Três sanitários amarelos portáteis, operados a bateria, foram retidos para a chegada do coronel.
E quando o coronel chegou naquela noite, o chefe do distrito foi convocado, e sanitários amarelos foram revelados. O coronel pigarreou e produziu um discurso escrito à mão.
«Sr. chefe do distrito e todas as pessoas simpáticas», disse ele, «o que estes presentes representam é mais do que a soma das suas partes. Eles carregam o espírito da América. Senhoras e Senhores, não há lugar na terra como a América. É a terra onde os milagres acontecem. É um farol para mim e para vocês. Vejam, na América consideramo-nos como verdadeiramente afortunados tendo a maior democracia que o mundo já conheceu, e queremos que vocês, pessoas simpáticas, partilhem da nossa boa sorte».
Thomas Jefferson, George Washington, mesmo a «cidade sobre uma colina» de John Winthrop obtiveram uma menção. Tudo o que faltava era o Star Spangled Banner [hino americano] tocando no fundo.
É claro que os aldeões não faziam ideia daquilo que o coronel estava a falar. Quando os fuzileiros batiam palmas, eles batiam palmas. Quando o coronel acenava, as crianças acenavam. Quando partia, o coronel apertou a mão do sargento e disse: «Você tem muitos corações e mentes aqui. Continue, sargento!»
«Sim, senhor.»
No Vietname, testemunhei muitos espectáculos como esse. Eu tinha crescido na distante Austrália com base numa dieta cinematográfica constante de John Wayne, Randolph Scott, Walt Disney, os Três Estarolas e Ronald Reagan. O Caminho Americano da Liberdade que eles retratavam bem poderia ter sido retirado do manual WHAM.
Aprendi que os Estados Unidos tinham vencido a Segunda Guerra Mundial sozinhos e agora lideravam o “mundo livre” como a sociedade “escolhida”. Foi só muito mais tarde, quando li Opinião Pública de Walter Lippmann, que entendi alguma coisa do poder das emoções ligadas a ideias falsas e má história.
Os historiadores chamam a isto “excepcionalismo” – a noção de que os Estados Unidos têm um direito divino de levar o que chamam de liberdade ao resto da humanidade. Evidentemente, este é um refrão muito velho; os franceses e os britânicos criaram e celebraram a sua própria “missão civilizadora” enquanto impunham regimes coloniais que negavam as liberdades civis básicas.
No entanto, o poder da mensagem americana é diferente. Enquanto os europeus eram imperialistas orgulhosos, os americanos são treinados para negar o seu imperialismo. Enquanto o México era conquistado e os fuzileiros navais enviados para dominar a Nicarágua, os manuais americanos referiam-se a uma “idade da inocência”. As motivações americanas eram bem-intencionadas, morais, excepcionais, como disse o coronel. Não havia ideologia, diziam; e essa ainda é a sabedoria recebida. Na verdade, o americanismo é uma ideologia que é única porque o seu elemento principal é a sua negação de que é uma ideologia. É tanto conservadora como liberal, tanto de direita como de esquerda. Tudo o resto é heresia.
Barack Obama é a personificação deste “ismo”. Desde que Obama foi eleito, importantes liberais têm falado sobre o retorno da América ao seu verdadeiro status como uma «nação de ideais morais» – nas palavras de Paul Krugman no New York Times. No San Francisco Chronicle, o colunista Mark Morford escreveu que «as pessoas espiritualmente avançadas encaram o novo presidente como um “farol”… que pode ajudar a anunciar uma nova forma de estar no planeta».
Digam isso a uma criança afegã cuja família tenha sido destruída pelas bombas de Obama, ou uma criança paquistanesa cuja família esteja entre os 700 civis mortos pelos aviões não-tripulados de Obama. Ou digam isso a uma criança na carnificina de Gaza causada pelas armas inteligentes americanas que, revelou Seymour Hersh, foram de novo fornecidas a Israel para uso no massacre «somente depois de a equipa de Obama ter feito saber que não objectaria». O homem que ficou silencioso sobre Gaza é o homem que agora condena o Irão.
Obama é o mito que é o último tabu da América. O seu tema mais consistente nunca foi a mudança; foi o poder. Os Estados Unidos, disse ele, «lideram o mundo na batalha contra os males imediatos e na promoção do bem final […] Temos de liderar através da construção de um exército do século XXI para garantir a segurança do nosso povo e promover a segurança de todos os povos». E existe esta notável declaração: «Em momentos de grande perigo no século passado, os nossos líderes asseguraram que a América, pelos feitos e pelo exemplo, liderou e elevou o mundo, que nos mantivemos firmes e lutámos pela liberdade procurada por milhares de milhões de pessoas além das suas fronteiras». Nos Arquivos Nacionais, em 21 de Maio, afirmou: «Da Europa ao Pacífico, temos sido a nação que fechou as câmaras de tortura e substituiu a tirania pelo domínio da lei».
Desde 1945, «pelos feitos e pelo exemplo», os Estados Unidos derrubaram cinquenta governos, incluindo democracias, esmagaram cerca de 30 movimentos de libertação, apoiaram tiranias e criaram câmaras de tortura do Egipto à Guatemala. Incontáveis homens, mulheres e crianças foram bombardeados até à morte. Bombardear é canja. E, no entanto, aqui está o 44º Presidente dos Estados Unidos, tendo enchido o seu governo com belicistas, protagonistas de fraudes corporativas e poluidores das eras Clinton e Bush, provocando-nos enquanto prometem mais do mesmo.
Aqui está a Casa dos Representantes, controlada pelos democratas de Obama, votando para aprovar 16 mil milhões para três guerras e um futuro orçamento militar presidencial que, em 2009, excederá qualquer ano desde o fim da Segunda Guerra Mundial, incluindo os picos de gastos das guerras coreana e do Vietname. E aqui está um movimento pela paz, não todo mas boa parte dele, disposto a olhar para o outro lado e a acreditar ou a esperar que Obama irá restaurar, como Paul Krugman escreveu no New York Times, a «nação de ideais morais».
Não há muito tempo, visitei o Museu Americano de História no famoso Instituto Smithsonian em Washington. Uma das exposições mais populares chamava-se “O preço da Liberdade: os americanos na guerra”. Era tempo de férias e as filas de pessoas felizes, incluindo muitas crianças, misturavam-se através de uma gruta da guerra e da conquista estilo Pai Natal, onde mensagens sobre a “grande missão” da sua nação estavam iluminadas. Estas incluíam tributos à citação «americanos excepcionais [que] salvaram um milhão de vidas» no Vietname, onde estavam – citação – «determinados a travar a expansão comunista». No Iraque, outros bravos americanos – citação – «empregaram ataques aéreos de precisão sem precedentes».
O que foi chocante não foi tanto o revisionismo de dois dos crimes épicos dos tempos modernos, mas a simples e rotineira escala da omissão.
Como todos os presidentes dos EUA, Bush e Obama têm muito em comum. As guerras de ambos os presidentes, e as guerras de Clinton e de Reagan, de Carter e de Ford, de Nixon e de Kennedy, são justificadas pelo mito duradoiro da América excepcional – um mito que o falecido Harold Pinter descreveu como «um brilhante, espirituoso, altamente bem-sucedido acto de hipnose».
O jovem inteligente que recentemente chegou à Casa Branca é um hipnotizador muito fino, em parte porque é tão extraordinário ver um afro-americano no pináculo do poder na terra da escravatura. Contudo, este é o século XXI, e raça – juntamente com sexo e mesmo classe – podem ser instrumentos muito sedutores de propaganda. Para o que importa, acima de raça e género, está a classe que se serve.
O círculo íntimo de George W. Bush – do Departamento de Estado ao Supremo Tribunal – foi talvez o mais multirracial na história presidencial. Era politicamente correcto por excelência. Pensem em Condoleezza Rice e em Colin Powell. Foi também o mais reaccionário.
Para muitos, a própria presença de Obama na Casa Branca reafirma a nação moral. Ele é um sonho de marketing. Como a Calvin Klein ou a Benetton, ele é uma marca que promete algo especial – algo excitante, quase picante, como se ele fosse um radical, como se ele pudesse estabelecer a mudança. Ele faz as pessoas sentirem-se bem. Ele é um homem pós-moderno sem bagagem política.
No seu livro, A minha herança, Obama refere-se ao trabalho que teve depois de se ter graduado na Universidade de Columbia em 1983. Ele descreve o seu empregador como «uma casa de consultoria para empresas multinacionais». Por alguma razão, ele não diz quem foi o seu empregador ou o que fez lá. O empregador foi a Business International Corporation, que tem uma longa história de fornecimento de cobertura para a CIA, com acção encoberta, e de infiltração dos sindicatos e da esquerda. Eu sei disso porque ela foi especialmente activa no meu próprio país, a Austrália.
Obama não diz o que fez na Business International; e pode não haver nada de sinistro, mas parece digno de investigação, e de debate, certamente, como uma pista para quem o homem é.
Durante o seu breve período no Senado, Obama votou para continuar as guerras no Iraque e no Afeganistão. Votou a favor da Lei Patriota. Recusou-se a apoiar um projecto de lei a favor dos cuidados de saúde financiados por um único organismo público. Apoiou a pena de morte. Como candidato presidencial, recebeu mais apoio empresarial do que John McCain. Prometeu fechar Guantánamo como uma prioridade e não o fez. Em vez disso, isentou os autores de tortura, restabeleceu as infames comissões militares, manteve intacto o gulag de Bush e opôs-se ao habeas corpus.
Daniel Ellsberg estava certo quando disse que, com Bush, um golpe militar tinha tido lugar nos Estados Unidos, dando ao Pentágono poderes sem precedentes. Esses poderes foram reforçados pela presença de Robert Gates, um amigo íntimo da família Bush e secretário da Defesa de George W. Bush, e por todos os funcionários e generais do Pentágono de Bush que mantiveram os seus lugares sob Obama.
Na Colômbia, Obama está a planear gastar 46 milhões dólares numa nova base militar que apoiará um regime suportado por esquadrões da morte e prosseguir a trágica história de intervenção de Washington na América Latina.
Num pseudo-evento encenado em Praga, Obama prometeu um mundo sem armas nucleares a uma audiência global na sua maioria sem consciência de que a América está a construir novas armas nucleares tácticas destinadas a eliminar a distinção entre guerra nuclear e convencional. Como George Bush, ele usou o absurdo da Europa ameaçada pelo Irão para justificar a construção de um sistema de mísseis que visa a Rússia e a China.
Num pseudo-evento na Academia Naval de Annapolis, adornado com bandeiras e uniformes, Obama mentiu dizendo que as tropas estavam a voltar a casa. O chefe do exército, general George Casey, diz que a América estará no Iraque por até uma década; outros generais dizem quinze anos. As unidades serão renomeadas como formadores; mercenários irão tomar o seu lugar. Foi assim que a guerra do Vietname durou após a “retirada” americana.
Chris Hedges, autor de Empire of Illusion, explica-o bem. «O presidente Obama», escreveu ele, «faz uma coisa e a marca Obama fá-lo acreditar noutra. Esta é a essência da publicidade bem sucedida. Você compra ou faz aquilo que o anunciante quer por causa de como ele o faz sentir». E assim você é mantido num «perpétuo estado de infantilidade». Ele chama a isso de «política suja».
A tragédia é que a marca Obama parece ter estropiado ou absorvido o movimento anti-guerra, o movimento pela paz. De 256 democratas no Congresso, trinta estão dispostos a assumir uma posição contra o partido da guerra de Obama e Nancy Pelosi. Em 16 de Junho, eles votaram a favor de 106 mil milhões de dólares para mais guerra.
Em Washington, o grupo Fora do Iraque das primárias está fora de acção. Os seus membros nem sequer podem chegar a uma forma de expressão da razão pela qual estão silenciosos. Em 21 de Março, uma manifestação no Pentágono pelo outrora poderoso Unidos pela Paz e pela Justiça arrastou apenas alguns milhares. O presidente cessante da UPJ, Leslie Cagan, diz que as suas pessoas não estão a aparecer porque «é suficiente para muitos deles que Obama tenha um plano para acabar com a guerra e que as coisas estejam a mover-se no sentido certo». E onde está o poderoso MoveOn nestes dias? Onde está a sua campanha contra as guerras no Iraque e no Afeganistão? E o que foi dito exactamente quando, em Fevereiro, o director executivo do MoveOn, Jason Ruben, se encontrou com o presidente Obama?
Sim, um monte de gente boa mobilizou-se por Obama. Mas o que exigiram dele – para além da amorfa “mudança”? Isso não é activismo.
O activismo não desiste. O activismo não é sobre política de identidade. O activismo não espera que lhe digam. O activismo não depende do ópio da esperança. Woody Allen disse certa vez: «Senti-me muito melhor quando desisti da esperança». O verdadeiro activismo tem pouco tempo para a política de identidade, uma distracção que confunde e sorve boas pessoas em toda a parte.
Eu escrevo para o jornal italiano Il Manifesto, ou melhor, costumava escrever para ele. Em Fevereiro, enviei ao editor internacional um artigo que levantou questões sobre Obama como uma força progressista. O artigo foi rejeitado. Porquê? Perguntei. «De momento», escreveu o editor, «preferimos manter uma abordagem mais “positiva” à novidade apresentada por Obama… pegaremos em questões específicas […] mas não gostaríamos de dizer que ele não fará nenhuma diferença».
Por outras palavras, um presidente norte-americano projectado para promover o sistema mais rapace na história é subscrito e despolitizado pela esquerda. O que é notável neste estado de coisas é que a chamada esquerda radical nunca esteve mais prevenida, mais consciente, das iniquidades do poder. O Movimento Verde, por exemplo, aumentou a consciência de milhões de pessoas, de modo que quase toda criança sabe algo sobre o aquecimento global; e contudo há uma resistência dentro do movimento verde para com a noção de poder como um projecto militar. Observações similares podem ser feitas dos movimentos gay e feminista; como em relação ao movimento operário, ainda respira?
Uma das minhas citações favoritas é de Milan Kundera: «A luta das pessoas contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento». Nunca devemos esquecer que o objectivo primário do grande poder é distrair e limitar o nosso desejo natural de justiça social, igualdade e verdadeira democracia. Há muito tempo, o governo invisível de propaganda de Bernays elevou o grande negócio, do seu status impopular como uma espécie de máfia ao de uma força motriz patriota. O Modo de Vida Americano começou como um slogan publicitário. A imagem moderna do Pai Natal foi uma invenção da Coca-Cola.
Hoje, somos confrontados com uma oportunidade extraordinária, graças ao crash de Wall Street e à revelação, para as pessoas comuns, de que o mercado livre nada tem a ver com a liberdade. A oportunidade é o reconhecimento de uma agitação na América que não é familiar a muitos na esquerda, mas que está relacionada com um grande movimento popular em crescimento em todo o mundo.
Na América Latina, há menos de 20 anos, havia o desespero do costume, as divisões usuais de pobreza e de liberdade, os bandidos usuais em uniformes governando regimes indizíveis. Existe agora um movimento popular baseado na revitalização das culturas e línguas indígenas, e uma história de luta popular e revolucionária menos afectada pelas distorções ideológicas do que em qualquer outro lugar.
As recentes conquistas incríveis na Bolívia, no Equador, na Venezuela, em El Salvador, na Argentina, no Brasil e no Paraguai representam um esforço para os direitos políticos e da comunidade que é verdadeiramente histórico, com implicações para todos nós. Estes sucessos são expressos perversamente no derrube do governo das Honduras, pois, quanto mais pequeno o país, maior a ameaça de que o contágio da emancipação se siga.
Em todo o mundo, movimentos sociais e organizações de base surgiram para combater o dogma do livre mercado. Eles ensinaram aos governos do sul que os alimentos para exportação são um problema ao invés de uma solução para a pobreza global. Eles politizaram as pessoas comuns para defenderem os seus direitos, como nas Filipinas e na África do Sul. Uma autêntica globalização está a crescer como nunca, e isso é excitante.
Considerem a notável campanha de boicote, desinvestimento e sanções – abreviadamente, BDS – visando Israel, que está a varrer o mundo. Navios israelenses foram mandados embora da África do Sul e da Austrália ocidental. Uma empresa francesa foi obrigada a abandonar planos para construir uma ferrovia ligando Jerusalém com colonatos israelenses ilegais. Os organismos desportivos israelenses encontram-se isolados. As universidades começaram a cortar os laços com Israel, e os alunos estão activos pela primeira vez nesta geração. Graças a eles, o momento sul-africano de Israel aproxima-se, pois foi em parte deste modo que o apartheid foi derrotado.
Na década de 1950, nunca esperámos que o vento forte da década de 1960 soprasse. Sintam a brisa hoje. Nos últimos oito meses, milhões de emails irados, enviados por americanos comuns, inundaram Washington. Isso não aconteceu antes. As pessoas estão indignadas enquanto as suas vidas são atacadas; elas não têm qualquer semelhança com a enorme massa apresentada pela mídia.
Olhem para as sondagens que raramente são relatadas. Mais de dois terços dos americanos dizem que o governo devia cuidar daqueles que não podem cuidar de si próprios; 64 por cento pagariam mais impostos para garantir cuidados de saúde para todos; 59 por cento são favoráveis aos sindicatos; 70 por cento querem o desarmamento nuclear; 72 por cento querem os EUA completamente fora do Iraque; e assim por diante.
Durante demasiado tempo, os americanos comuns foram encaixados em estereótipos que são desdenhosos. É por isso que as atitudes progressistas das pessoas comuns raramente são relatadas nos meios de comunicação. Elas não são ignorantes. Elas são subversivas. Elas estão informadas. E são “anti-americanas”.
Uma vez pedi a uma amiga, a grande correspondente de guerra e humanitária americana, Martha Gellhorn, para me explicar “anti-americano”. «Eu digo-te o que é “anti-americano”», disse ela. «É o que os governos e os seus interessados empossados chamam àqueles que honram a América opondo-se à guerra e ao roubo de recursos e acreditando em toda a humanidade. Existem milhões destes anti-americanos nos Estados Unidos. São pessoas comuns que não pertencem a nenhuma elite e que julgam o seu governo em termos morais, embora elas chamassem a isso decência comum. Elas não são vãs. Eles são as pessoas com uma consciência desperta, as melhores dentre os cidadãos dos Estados Unidos. Pode-se contar com elas. Estiveram no sul, com o movimento dos Direitos Civis, acabando com a escravatura. Estiveram nas ruas, exigindo o fim das guerras na Ásia. Claro, elas desaparecem da vista de vez em quando, mas elas são como sementes debaixo da neve. Eu diria que elas são verdadeiramente excepcionais.»
Um certo populismo, que tem um orgulhoso, embora esquecido passado, está mais uma vez a crescer na América. No século XIX, um autêntico americanismo de base foi expresso em realizações populistas: o sufrágio feminino, a campanha para uma jornada de oito horas, taxas de imposto progressivas, propriedade pública de ferrovias e comunicações, e a quebra do poder dos lobistas corporativos.
Os populistas americanos estavam longe de ser perfeitos; por vezes, andavam em más companhias, mas falaram de baixo para cima, não de cima para baixo. Foram traídos por líderes que os instaram a estabelecer um compromisso e a fundir-se com o Partido Democrata. Será que isso soa familiar?
O que Obama, os banqueiros, os generais, o FMI, a CIA e a CNN temem é que as pessoas comuns se unam e ajam em conjunto. É um medo tão antigo como a democracia: um medo de que de repente as pessoas transformem a sua raiva em acção e sejam guiadas pela verdade. «Num tempo de engano universal», escreveu George Orwell, «dizer a verdade é um acto revolucionário».
Fonte: John Pilger